Águas Rasas: nem a paisagem é capaz de salvar o filme

aguas rasasO medo do tubarões já se tornou um cliché no cinema. Explorado à exaustão, dificilmente algum estúdio consegue produzir algo atrativo e esse tipo de filme chama mais a atenção por tosqueiras como Sharknado do que algo que quer fazer você acreditar que estes animais são assassinos impiedosos e cruéis.

Lá em 1975, quando não havia tanta informação e tantos estudos sobre tubarões isso colava muito mais e também por isso (além de um roteiro interessante) o filme dirigido por Steven Spielberg (outro motivo) e estrelado por Rob Scheider (mais um) se tornou um clássico e ninguém foi (ou será?) capaz de superá-lo.

Deixe o tubarão, vamos à paisagem, que é incrível, mas incapaz de salvar uma história ruim. Jaume Collet-Serra, diretor do ótimo A Órfã, não foi capaz de superar um roteiro, que de tão fraco, nem o nome da praia paradisíaca intocada menciona.

Blake Lively interpreta a figura central da trama, Nancy, uma jovem estudante de medicina que após a morte de sua mãe resolve se isolar em tal praia por um motivo especial.

O primeiro terço do filme é cansativo tentando te fazer ter o mínimo de empatia pela protagonista. Outra coisa que incomoda bastante durante é a exibição da tela do celular de Nancy na tela do filme. Fotos, mensagens e até uma conversa em vídeo com seu pai e sua irmã.

Talvez até tenha sido uma crítica de Serra ao fato dos mais jovens não largarem a droga do celular nem em lugares incríveis. Em dado momento, quando ela está “presa” ao celular, o motorista que a dá carona diz que olhando para o celular ela não enxerga as belezas em volta.

Bom, agora vamos direto ao ponto. Um lugar paradisíaco, um tubarão assassino e uma protagonista que luta por sua vida. Tudo para dar certo, certo? Errado. O filme peca por deixar totalmente à mostra que nem pouco do comportamento real do animal foi estudado.

Quanto ao tubarão. Bom, pra “variar” o vilão da vez é um tubarão-branco, um dos maiores e certamente o mais aterrorizante predador dos oceanos. Tudo começa quando o faminto antagonista se aproxima para jantar uma carcaça de baleia – presumo que seja uma jubarte -, e dá de cara com Nancy e os outros personagens, estes completamente irrelevantes, mesmo!

Vamos lá, tubarões sentem vibrações magnéticas e cheiro de sangue na água a quilômetros de distância e por isso o nosso amigo foi parar lá. Primeiro ponto é que não seria apenas ele, mas vários outros, inclusive de outras espécies que iriam dar um check in na coitada da baleia. Acho difícil que um (ou mais) tubarão demonstrasse interesse em um ser humano quando têm toneladas de carne para se sustentar por semanas.

Ah mas é filme, ok, ele se interessou pela humana na prancha que foi incapaz de ver uma jubarte de 40 toneladas boiando na água. Ele manda ver uma mordida nela, claro, afinal a treta tem que começar de algum jeito.

guas rasas

Terceiro ponto: tubarões não são de violência burra e gratuita. Eles tem um comportamento de morder para experimentar e por isso geralmente em seguida largam a presa e se for do seu gosto a deixam sangrar até a morte. Isso sempre falando dos tubarões-brancos, tá?

Exceções são as focas e leões-marinhos, assíduos no cardápio dos algozes que, por sua vez preferem e precisam de presas com grande quantidade de gordura para sustenta-los, o que não é o caso de nenhum ser humano presente na tela de Águas Rasas.

Só por isso o bichão, mesmo desferindo uma senhora mordida em Nancy, perderia o interesse por ela em seguida e voltaria para sua deliciosa baleia cheia de gordura.

Duas referências (vamos chamar assim para sermos educados) ao clássico de 1975 são a clássica cena do tubarão de frente e de boca aberta querendo estraçalhar a vítima e a visão em primeira pessoa do bicho. Enfim, há quem chame isso de tributo ou homenagem, eu chamo de falta de criatividade mesmo.

Há muito tempo tem gente fotografando tubarões “surfando” a mesma onda que os surfistas em diversos lugares do mundo e claro, em Águas Rasas o cliché da natureza não poderia faltar. Em ambos os casos, uma coisa é referência, outra coisa é cópia, fim.

Lively não segura, não passa empatia e muito menos convence de que vai sair daquela situação com vida. Veja bem: ela está em cima de uma pedra circundada por corais, com um tubarão de 6m em seu encalço, corpos espalhados pela água e longe da praia em um sol quente dos infernos que não faz uma bolha em sua pele. Tá.

Pra segurar uma plateia sozinha na tela em um visual praiano só sendo um Tom Hanks da vida. E por falar nele, Nancy divide a tela com um pássaro que em poucas horas sabe até obedecer suas ordens. Em Náufrago quem faz companhia para Hanks é o Wilson, mas que por motivos óbvios não lhe obedece.

Águas Rasas não convence em nada por tudo isso e subestima nossa inteligência. Se for para ver tubarões na tela, prefira os clássicos, as tosqueiras ou os documentários do Discovery.

 

Fotos: Divulgação/Internet

Comentários