Banksy. George Orwell. E o sucesso do anonimato

IMG_2047Em tempos de redes sociais, o que as pessoas mais querem é ser vistas, estarem expostas. Aparecer. Outro dia li uma frase de um autor desconhecido que dizia:

“O que George Orwell não previu é que compraríamos nossas próprias câmeras, e o medo seria justamente não ser visto”.

Óbvio que Orwell falava sobre vigilância governamental, por isso, a frase não é tão acurada. Entretanto, é um pensamento interessante para explicar a obsessão atual que as pessoas têm, não apenas em aparecer, mas em se sentirem especiais.

O grande problema do mercado de trabalho hoje se consiste justamente em que todos acreditam ser especiais. Líderes natos. Nascidos para o sucesso. Infelizmente poucos irão conseguir, porque como em qualquer sociedade, se existe um líder, é porque existe um liderado. E se existe um famoso é porque existe um anônimo que o admira e o acompanha.

O sonho de ser especial fala mais alto hoje, graças à falsa sensação que as mídias eletrônicas dão às pessoas de que elas podem ter seus momentos de glória mais facilmente. De forma mais rápida, mais barata e nem sendo tão bom assim. Não é verdade.

A exposição nas redes é relativa, e quase sempre inútil ao seu propósito. Além disso, nem sempre aparecer é garantia de sucesso. Às vezes o “não-aparecer” pode garantir este objetivo mais facilmente. Como você verá a seguir.

Eu estive na Europa este mês e, por sorte, peguei uma grande exposição do Banksy no Moco Museum de Amsterdam. Como muitos sabem, Banksy se consagrou com stencils (se você preferir pode chamar de Grafites) que passam mensagens de rebeldia e críticas à sociedade atual. Sua “pop art” ficou famosa. Se sobressaiu entre milhares de outros artistas de rua no mundo. E não foi a exposição que deu isso a ele. Pelo contrário. Foi o anonimato.

E para ser anônimo é preciso ter mais coragem do que para se expor. Porque requer que o público entenda, além da sua arte, o seu excentrismo.

A mensagem de Banksy se sobressaiu por alguns motivos: ela é direta a nossa compreensão. Você bate o olho e entende a piada. Nosso cérebro é mais condescendente às mensagens que ele entende automaticamente, os desenhos são feitos de uma maneira inteligente. São realistas. Simples. Rápidos.

As críticas vão de encontro ao inconsciente coletivo. (Todo mundo tem aquela mesma percepção da sociedade). Sua arte fala de esperança e amor. Apesar da crueza das imagens. Porém, nada disso explica tamanha devoção ao artista. Algumas galerias chegam a leiloar suas artes na parede do muro. Restando ao comprador se virar para retirá-la do seu lugar de origem. Mas o que explica essa devoção?

Justamente o anonimato do artista.

Nas últimas semanas, o mundo do show business se agitou diante da notícia de que a identidade do Banksy havia sido revelada sem querer, dando conta de que Robert Del Naja, líder da banda Massive Attack seria o tal artista. Não se falou em outra coisa em quase todos sites de notícias pop pelo mundo. Por que isso aconteceu?

Bem, mesmo nas nossas novelas, ou séries americanas, perguntas como: “quem matou?” ou “quem é o tal…?” sempre geram muito mais repercussão às histórias. Por isso, “quem é o Banksy?” traz para a vida real o suspense da descoberta, causando enorme furor.

Muitos dizem que Banksy é Robert Del Naja, outros dizem que ele é apenas o líder de um movimento de artistas. Outros dizem que Banksy é apenas um fã da banda e, por isso, suas artes surgem por onde  passa o Massive Attack.

A verdade é uma só. Qual a necessidade de saber quem pega o spray e vai até a parede marcá-lo? Por que nas exposições do Banksy temos pedaços de muros com sua arte original? No caso dele, quem colocou a arte na parede não é, ou não deveria ser importante, porque eu mesmo posso pagar qualquer pichador pra fazer isso com maestria.

Quando o tempo passar, o que terá valor realmente, o que deverá constar em museus e leilões, o que deverá valer milhões não são as pinturas. E sim, obviamente, os stencils originais.

Banksy pode ser um grupo de grafiteiros espalhando artes pelo mundo. Mas os stencils originais sim, são feitos por um único gênio. Porque em todas as imagens percebemos a mesma mão no estilete. Como reconhecer a caligrafia de Ernest Hemingway em um manuscrito, ou a palhetada inconfundível de George Harrison no violão. Ninguém reproduz igual.

O que o anonimato de Banksy traz de enlouquecedor e que poucos percebem, não são as artes nos muros. Mas sim, quem produziu aquele stencil? Quem pensou na imagem “kids on the guns” ou na famosíssima “there is always hope” (a menina soltando o balãozinho de coração)? Ou o rebelde prestes a arremessar um buquê de flores ao invés do coquetel molotov?

Afinal, de quem é o estilete?

E é por isso que o anonimato de Banksy faz tanto sucesso. Sua arte nós sabemos onde está. Mas onde estão os stencils originais? Quem os detém? Eles estarão em algum museu no futuro? Ou serão destruídos junto a sua identidade secreta?

Apesar de toda genialidade da arte, a maior contribuição de Banksy ao mundo é provar que a fama não está em se expor nas redes sociais, e que o anonimato pode sim, o tornar mais famoso do você nunca imaginou.

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Fotos: Guga Gravas

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