Entrevista exclusiva: Beto Mejía (Móveis Coloniais de Acaju)

BetoMejia-divulgacao2-foto por Calu CorazziAs últimas semanas foram corridas para Beto Mejía. O flautista do Móveis Coloniais de Acaju preparava-se para encerrar a longa estrada que teve com sua banda com o lançamento do seu primeiro disco solo, “Wahyoob”.

Em meio à essa correria toda, Beto tirou um tempo para bater um papo com o Rock Noize e falar do fim do Móveis – que diga-se de passagem, fez um show de despedida incrível no Teatro Mars em São Paulo, no domingo anterior a esta entrevista – e claro, sobre este novo trabalho.

Confira a entrevista muito legal que fizemos com o querido Beto Mejía nas linhas abaixo e escute “Wahyoob” nas principais plataformas de streaming.

Quais as diferenças/características do trabalho solo para o trabalho com o Móveis? Há algo que você gostaria de fazer que só foi possível agora? Há algo em comum?

R: O trabalho solo é bem mais pessoal do que o do Móveis. Lá na banda, tínhamos o exercício do desapego para com as ideias. No meu trabalho solo, trabalho justamente como posso desenvolver minha ideia inicial bruta sem alterações de outras pessoas. É um tremendo exercício de autoconhecimento. No início, parece uma atividade extremamente egóica, mas é extremamente libertária. O Móveis sempre teve uma identidade sonora muito marcante. Nesse disco, pude trabalhar com coisas que não havia muito espaço no Móveis, como percussões e e detalhar mais a função de sintetizadores. De comum com o trabalho do Móveis, acho que tem muito das melodias e a busca por colocar o ouvinte num momento emocional e energético de bem estar.

Quais são referências para esse disco? O que você pode destacar em comparação ao “Abraço”? Você trouxe algo do EP para o “Wahyoob”, ou foram caminhos totalmente diferentes e experiências distintas?

R: Pra mim, foi um caminho totalmente diferente em relação ao “Abraço”. O primeiro EP era mais intimista, com uma instrumentação mais leve. Esse disco já foi pensado pra ser mais paulada. Mais guitarras, mais synths, mais força. Principalmente, pra conversar com o conceito do disco. Acho que as melodias que criam dão a liga entre os dois trabalhos. Acho que essa é uma característica que define um pouco minha identidade como compositor.

Foram 18 anos com o Móveis, o que você levou de lá para seus discos solo?

R: Levei a experiência em estúdio, principalmente. Como lidar com pessoas distintas num processo complexo que é fazer um disco talvez tenha sido o maior aprendizado com o Móveis.

De onde surgiu a vontade de não ser só músico, mas também participar da produção, com o Kelton Gomes, e como foi? E quais os motivos para o disco ter sido mixado por várias pessoas?

R: Sempre tive muita afinidade com o Kelton. Produzir junto a ele teve como objetivo alcançar da melhor maneira possível o resultado que tinha em mente. E é sempre bom ter um olhar que não esteja viciado com as canções, como eu estava. A ideia de termos 5 mixadores vai de frente com o conceito do disco. Queria que cada um incorporasse seu animal de poder e botasse pra foder nas mixes. E foi exatamente isso que rolou!

BetoMejia-divulgacao5-foto por Calu Corazzi

Quais as inspirações para as composições? (além de Amora que é pra sua filha)

R: As inspirações vem de tudo. Das observações do mundo e da vida. De cores a amores. Vale tudo.

Como foi feita a escolha das participações?

R: O Gustavo [Bertoni] é amigo de Brasília. Admiro bastante o trabalho dele. Tem um voz linda e é menino “bão”. O André Whoong lançou um disco no começo do ano e achei foda. Encontrei com ele no aeroporto e trocamos algumas ideias. A afinidade foi tanta que em 2 semanas ele já tinha colocado um synth e gravou vozes logo em seguida. Foi massa demais! E o Victor Meira é um parceiro que me acolheu muito bem quando cheguei em São Paulo, grande escritor e músico. Quero muito que ele voe longe. Cara sensível e com uma visão de mundo fantástica. Queria ter essas pessoas perto sempre. O Jair Naves e a Bruna Mendez iam cantar em outras músicas, mas por incompatibilidade de agenda, não rolou.

Como tem sido a recepção do disco? As pessoas tem facilidade para desvincular a sua imagem com a do Móveis?

R: Lançar disco hoje é difícil. Quase ninguém escuta o trabalho de cabo a rabo. mas, quem ouviu tem me dado um ótimo retorno. Tô feliz com isso e feliz pessoalmente com o resultado a que cheguei. A imagem da banda sempre estará atrelada a mim. Mas, não vejo problema nenhum nisso. Fiz parte do grupo e me orgulho demais disso.

Quais foram as dificuldades desse projeto e de onde surgiu a ideia do download beneficente?

R: Demorei bastante pra esse disco ser feito. Acho que segurar a ansiedade foi o maior desafio do projeto. Tive pessoas que sempre ajudaram em diversas fases do processo. Então, sempre que tinha um probleminha, encontrávamos alguma solução em conjunto. Ainda, sempre quis que  meu trabalho tivesse um impacto social maior. Sempre pensei em como a minha música poderia ajudar outras pessoas, além do sentido emocional. Daí, pesquisando casos de bandas gringas, me deparei com um modelo semelhante. Resolvi aplicar a ideia para esse projeto. Sou vegetariano e o conceito do disco passa muito por isso, resgatar energias que foram ou são esquecidas durante a evolução. Somos parte disso tudo. Animais em todos os aspectos. Daí, veio a ideia de escolher o Santuário Terra dos Bichos. Conheci a Monique Evelle, diretora da Desabafo Social, num seminário sobre ideias e projetos transformadores e me apaixonei pelas ações da ONG.

Hoje, muito mais do que antes, músicos embarcam em projetos solo, paralelos e outras bandas. Como é fazer tantas coisas, seguir por caminhos e estilos muitas vezes bem diferentes e como encontrar tempo para tanta coisa?

R: A minha motivação vem da experimentação. Poder vibrar em diversos projetos é o que nos mantém produzindo e aprendendo sempre. É um vício foda. Uma droguinha que faz bem demais. Sem isso, as coisas perdem sentido. O tempo a gente encontra.

Qual a previsão para os shows de lançamento?

R: Se tudo se encaminhar bem, acho que no fim de janeiro, começo de fevereiro estou na estrada.

 

Entrevista: Mônica Arruda
Fotos: Calu Corazzi (Divulgação)

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