Entrevista Exclusiva: Nenê Altro fala sobre seu disco solo, show no Goiânia Noise Festival e mais

Foto por Luiz AlvesMais uma entrevista exclusiva aqui no Rock Noize! Agora nós conversamos com um cara que crescemos ouvindo, ninguém menos do que Nenê Altro, líder do Dance Of Days e que recém lançou o excelente disco solo “Classe de 1972”.

Nenê bateu um papo com a gente pra falar sobre as gravações do disco e diferenças de se trabalhar com uma banda e como artista solo, sobre sua apresentação no Goiânia Noise Festival 2017 e muito mais. O papo completo vocês podem conferir abaixo!

Nós estaremos lá no Goiânia Noise para conferir não só o show do Nenê Altro, mas também tudo que for rolar. Aproveitem para conferir tudo que publicamos sobre o Goiânia Noise Festival e garanta o seu ingresso entrando aqui.

Rock Noize: Depois de mais de 20 anos gravando com o Dance of Days, como foi gravar um material sozinho?

Nenê Altro – Esse é um sonho que tenho já faz muitos anos. Minha primeira banda data de 1985 e, pirralho que era, mal imaginava o quão sério isso se tornaria em minha vida ao longo dos anos. Desde então só estive à frente de conjuntos, em sua grande maioria ligados ao punk e ao hardcore. Em 2004 fundei com meu parceiro Edu Krummen, que está no solo comigo até hoje, a primeira banda que começava a carregar meu nome, o Nenê Altro & O Mal de Caim. Foram dez anos tocando no circuito deathrock/darkwave, gravamos um álbum, demotapes, participamos de coletâneas históricas do segmento, mas em 2015, quando decidimos escrever um novo capítulo na discografia da banda, ele me sugeriu mantermos a história dela intacta até ali e começarmos algo novo, do zero, só que agora apenas com meu nome, para se tornar o início real de minha carreira solo.

Rock Noize: Você passou por vários estilos em “Classe de 1972”. Como foi isso? A ideia era essa mesmo? Explica como foi.

Nenê Altro – A influência do rock nacional dos anos 80 já era evidente na demo final de 2009-2010 do Nenê Altro & O Mal de Caim, então minha parceria com o Edu já tinha esse campo inicial para o trabalho solo. Começamos ali, tocando sons velhos em ensaios e fazendo algumas canções, mas eu senti cada vez mais a necessidade de romper com as barreiras do que fiz por quase 30 anos em minha vida, de fazer algo diferente inclusive dessa fase final da nossa antiga banda, então decidi colocar influências de outras coisas que gosto muito e sempre quis fazer, como ska two-tone, um pouco de mod, etc. Na faixa “Ainda Estou Aqui Esperando Por Você”, por exemplo, eu quis criar uma atmosfera meio Big Audio Dynamite, enfim, é óbvio que um pé sempre vou ter no punk rock porque cresci ali, mas tive vontade de dar passos pra fora dele e para onde meu coração mandar. No próximo trabalho já penso em ousar um pouco mais e tentar colocar um pouco de rocksteady, umas coisas mais lentas e com climão, quem sabe? Sinto-me muito livre criativamente e já tenho alguns rabiscos.

Rock Noize: O disco recebeu elogios de ninguém menos do que Dado Villa-Lobos (Legião Urbana). Como foi pra você receber uma crítica tão positiva de um dos ícones do rock nacional?

Nenê Altro – Quando o Razuk da Monstro me falou que o Dado iria escutar o disco eu fiquei eufórico, como um adolescente entregando sua primeira demo para um zine ou para um selo. O Legião Urbana sempre foi uma das maiores influências em minha vida e muito disso está no Dance of Days, banda a qual me dedico de corpo e alma há vinte anos e quem acompanha sabe disso, sempre foi algo que deixei bem claro. Quando a resenha dele chegou eu fiquei muito, mas muito feliz, só dele ter escutado o álbum. O Legião sempre me apontou na música um caminho para levar, além do entretenimento, coisas boas e significativas que pudessem transformar as vidas das pessoas e foi nesse prisma que eu desenvolvi minha própria veia como compositor. Só de ter ganhado a resenha do Dado eu já ganhei o ano, como bem disse meu parceiro de banda Edu Krummen. Ainda estou muito feliz e cheio de incentivo por isso ter acontecido e sei que esse fato vai ficar marcado para sempre nessa nova história que escrevo em minha carreira.

Rock Noize: Qual a história da Classe de 1972? O nome e as letras do álbum tem histórias verídicas por trás?! Risos

Nenê Altro – 1972 foi o ano em que nasci. Comecei a escrever as letras do disco com meus 43 anos (trinta passos ao horizonte e treze passos rumo ao mar) e terminei nos últimos retornos ao estúdio, com quase 45 (risos), então fala muito do que vivi nesse período. Tem muito do amor que tenho por minha esposa, a minha eterna musa, tem muito de situações difíceis que atravessei nessa fase, de sentimentos pesados que quis exorcizar e por outro lado o álbum também tem muita energia boa, fala de esperança, de sonhos e de vitória. Tudo que escrevi em minha vida foi pessoal, salvo exceções em que trabalhei com personagens nas poesias, mas estas são as que se tornaram mais “Lado B” em minha discografia, pois não é muito minha praia, então é natural que minha carreira solo seja a forma mais bruta dessa veia confessional que carrego.

Foto por Igor Moura

Rock Noize: Em agosto você vai se apresentar no Goiânia Noise Festival, qual a sua expectativa? Já que o festival é um dos maiores do underground do Brasil.

Nenê Altro – Quem me conhece sabe que sou muito ligado a simbologias. O Goiânia Noise Festival foi o primeiro grande festival em que o Dance of Days tocou, no final dos anos 90. Ou seja, ele abençoou nossa carreira e depois dele fizemos tudo nesses vinte anos, Abril Pro Rock, Porão do Som, Virada Cultural, enfim, estou mais do que feliz que essa benção esteja se repetindo agora com minha carreira solo. Além de ser um festival muito importante ele é um exemplo de resistência cultural e artística, que conseguiu manter intacto em seu coração o sonho daqueles meninos que mandavam dezenas de flyers e zines dentro de cartas para todo país com a esperança de aumentar laços e divulgar seus trabalhos e desenvolveu isso ao longo dos anos até tornar-se o monstro que é hoje em dia sem perder uma centelha que fosse de lealdade ao espírito. Vou guardar pra sempre comigo com muito carinho esse momento.

Rock Noize: Por falar em underground, como você vê a cena hoje? Vemos muitos lugares (Hangar, Inferno, etc.) que foram o quintal do underground fechando. Isso te preocupa?

Nenê Altro – Cada geração do rock nacional tem seus marcos. Posso falar mais por São Paulo, que é onde vivo. As primeiras bandas punks de São Paulo tocavam no Carbono 14, no Templo, Napalm, em casas que eu só conheço de nome ou de ouvir histórias. Depois sim veio o Acido Plástico, o Madame Satã, surgiram os espaços da minha geração. Aí veio a fase em que as bandas tocavam no Der Tempel, no Retrô, no Aeroanta, no Cais, enfim, cada época teve seus espaços. O Hangar foi o ícone da geração dos anos 2000, uma referência histórica de quase duas décadas e é óbvio que vai deixar muitas saudades, bem como o Inferno e outras casas que surgiram na época. Mas a arte se exige, ela tem urgência em sua força e essa ânsia de extravasar, de existir, é desbravadora por natureza. Talvez as pessoas que tenham começado já com o referencial de ter boas casas e um circuito estabelecido com boas estruturas para apresentações como o Hangar ofereceu por muito tempo estranhem muito as mudanças, mas as situações para shows eram absurdamente mais precárias, não acho que isso vá afetar ou enfraquecer o underground, novos espaços surgirão. É apenas uma fase de transição. O que fica é a história e o que vem é sempre o novo. Basta saber aproveitar cada época com o melhor que pode nos oferecer.

Rock Noize: Voltando a falar do Goiânia Noise Festival. Teremos alguma surpresa no show? Como será o repertório?

Nenê Altro – Vamos focar muito no “Classe de 1972”, até por ser o primeiro show da tour do disco. Temos meia hora de palco no festival e estamos nos dedicando para fazer um set afiado e impecável. Estou muito feliz mesmo com a resposta que estamos tendo desse álbum e muito surpreso com o público tão diferente que estamos atingindo. Muita gente que nem mesmo conhecia meu trabalho anterior com o Dance of Days e tem compartilhado as musicas, curtido o som. Estou muito confiante de que esse show será marcante nessa nova trajetória em minha carreira.

Rock Noize: E quais shows você quer ver no festival e quais você indicaria pra gente e pro público?

Nenê Altro – A participação do Pato Fu em “Adeus Sofia” do Dance of Days em 2004 foi um divisor de águas na história da banda e também na minha como artista. Estou muito feliz em poder dividir o palco com eles e sou muito grato ao Goiânia Noise por essa oportunidade. O Bacalhau é um velho parceiro, já nos trombamos várias vezes pela estrada e adorei seu novo trabalho com os Monstros do Ula Ula, pretendo sair do palco e ir direto pro outro ver o show deles! E sempre gostei do som do Mechanics, mas apesar de termos tocado juntos antes em alguns festivais nunca consegui ver um show da banda, então quero muito ver. Isso falando do sábado, que é o dia do nosso show. Sou muito fã do Edgard Scandurra e estou bem feliz de estarmos tocando no mesmo festival, e essa junção com o Relespublica de Curitiba é algo que tem muito a ver e eu gostaria muito de assistir, senão no festival em outra oportunidade. Queria ver também o Camisa de Venus tocando Raul Seixas, espero que toquem muitas do Novo Aeon, um dos meus preferidos da discografia.

Rock Noize: Valeu, Nenê! Parabéns pelo disco novo, obrigado pela entrevista e nos vemos em Goiânia!

Nenê Altro – Eu que agradeço pela entrevista e parabéns pelo trabalho com o portal, sempre acompanho as notícias e coberturas. Nos vemos em breve!

Foto 1: Luiz Alves

Foto 2: Igor Moura

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