Entrevista exclusivíssima: “Durante nossa juventude, experimentamos diferentes níveis de racismo (…)”, diz Selwyn Brown (Steel Pulse).

Sendo uma das principais atrações do Reggae Live Station, que irá acontecer em São Paulo, no dia 14 de novembro (clique aqui para mais informações), o grupo britânico Steel Pulse concedeu uma entrevista super exclusiva para nós da Rock Noize!

Com suas atividades iniciadas em 1975, o grupo encabeçado pelo guitarrista e vocalista David Hinds, já passou por altos e baixos ao longo da carreira, mas com um total de 11 álbuns lançados, sendo um deles condecorado com um Grammy de melhor disco de reggae, a banda arrasta multidões até os dias de hoje, tocando clássicos e com uma reputação que os coloca no mesmo patamar de monstros como The Wailers, Bob Marley e outras estrelas do reggae jamaicano.

Bem, sou testemunha para falar, pois as músicas do grupo são presença garantida no rádio daqui de casa e ter a oportunidade de conversar com a banda, foi uma experiência incrível. Sendo assim, trocamos uma ideia com o tecladista da banda, Selwyn ‘Bumbo’ Brown, membro da banda desde os primórdios e que junto com Hinds, formam a base das composições e das criações do Steel Pulse.

Conversamos sobre as expectativas da vinda para o Brasil, religião, cultura negra, política e possível set para os shows, o cara foi super gente boa e nos atendeu com extrema simpatia. Relaxe e aproveite (tanto quanto eu aproveitei) a entrevista!

RN – A banda irá fazer 2 shows no Brasil em Novembro, em São Paulo e Salvador. Vocês já estiveram no Brasil antes? Como foi a experiência por aqui?

Selwyn Brown – Sim, nós já tocamos no Brasil antes. Nossa primeira visita foi no verão de 1994 (logo após o Brasil ter vencido a Copa do Mundo pela quarta vez!!!). Nós fomos várias vezes depois e sempre tivemos bons momentos. Sempre nos sentimos bem vindos e cuidados pelos organizadores do shows, além dos fãs que sempre nos deram uma recepção fantástica.

RN – A história da banda já é extensamente conhecida pela causa social e pelo ativismo nos anos 70, em especial trazendo a mensagem da herança africana, como você acha que tudo começou? Desde o começo vocês sentiram a necessidade de espalhar essa ideia no meio de uma sociedade branca europeia?

Selwyn Brown – Todos os membros originais da banda cresceram em Birmingham e todos os nossos pais imigraram para o Reino Unido do Caribe (a maioria da Jamaica). Durante nossa juventude nós experimentamos diferentes níveis de racismo (na escola, no trabalho, por parte da polícia, Tv, rádio, jornais, imprensa, etc…) e todas essas experiências, inevitavelmente formaram uma considerável parte de como passamos a enxergar a sociedade na qual estávamos vivendo. Conforme fomos ficando mais velhos, aprendemos sobre o racismo que nossos pais também haviam sofrido quando chegaram no Reino Unido pela primeira vez e nos anos seguintes.

Nossa identidade cultural foi cunhada através da combinação das lições e ensinamentos que nossos pais e parentes do Caribe passavam para nós (a língua, comida, música, família e tradições da comunidade, costumes, etc…). Fomos introduzidos ao movimento Rastafari pelo reggae jamaicano (mais especificamente pelos sound systems de clubes caribenhos e por certos artistas que cantavam sobre as diferentes facetas do Rastafari, que quando estavam em turnê nos traziam as músicas em shows ao vivo). Nós também aprendemos sobre o movimento Rastafari através de livros e veículos, como jornais e artigos, eram livros difíceis de encontrar, mas nossa sede por conhecimento nos fazia superar essas dificuldades.

Quando começamos a lapidar nosso som, seguindo a linha das bandas que víamos, sentíamos essa necessidade de cantar canções endereçadas, tanto às lutas, quanto os sofrimentos do nosso povo ao longo do tempo, com as grandes conquistas, ressaltando a força, a determinação e a resiliência da nossa cultura. No mais, nossas músicas oferecem uma esperança e soluções para o futuro desenvolvimento do nosso povo, não apenas no Reino Unido, mas em toda a diáspora africana espalhada pelo mundo.

RN – Falando especificamente acerca das letras, eu gostaria de saber de onde vocês tiram tantas inspirações e referências, especialmente das que abordam religião, quero dizer, “Prodigal Son“, “Blessed Is the Man“, “Your House“… todas elas tem um grande peso bíblico. A banda possuí uma vida religiosa ativa?

Selwyn Brown – Os membros originais (e vários outros que fizeram parte da banda ao longo do tempo) cresceram em famílias tradicionalmente cristãs. Como está na Bíblia, os ensinamentos, histórias e profecias têm sido uma fonte de inspiração artística e espiritual para nós e outras tantas bandas de reggae roots, além de artistas ao longo dos anos, incluindo os mais proeminentes praticantes como Bob Marley (juntamente como Peter Tosh e Bunny Wailer). A fé Rastafari, essencialmente é nos dias de hoje uma representação do que nós acreditávamos ser a original fé cristã, a qual foi criada e nutrida na Etiópia na forma da Igreja Etíope Ortodoxa (onde o próprio Haile Selassie, sua família e a grande maioria da população etíope fizeram parte).

RN – Paralelamente a minha carreira de fotógrafo, sou professor de história e eu uso algumas de suas músicas em minhas aulas, como a “Ku Klux Klan“, “Wild Goose Chase“, “Biko’s Kindred Lament“, “Uncle George” e “Tribute To The Martyrs” para explicar sobre a história da África e mostrar alguns líderes que lutaram pelos direitos dos negros ao longo da história. O que a banda pensa sobre essa interpretação historiográfica no século XXI, especialmente quando nós vemos alguns movimentos radicais e governos com tão poucos aspectos sociais?

Selwyn Brown – É bem interessante como você utiliza nossas músicas em suas aulas de história. Eu vejo isso como uma forma positiva de iluminar as gerações mais jovens (e todas as demais) sobre a importância de se estudar os eventos e conquistas do passado. Algumas pessoas costumam falar que o passado não é importante, mas eu acredito que se você entende e estuda o que aconteceu, isso irá ajudar você a entender o caminho que o mundo está tomando nos dias de hoje.

Você comentou sobre algumas músicas, por exemplo George Jackson, um jovem negro que cometeu um pequeno delito e recebeu uma sentença injusta (um ano de cadeia) o que o levou a se levantar totalmente contra o sistema. Sua história é um reflexo de tantas formas do que acontece atualmente com milhares de homens e mulheres negras presas nos Estados Unidos, Reino Unido e Europa, que estão pagando uma quantidade de tempo ridículo para crimes tão pequenos. A maioria dessas pessoas acaba caindo no sistema e no seu ciclo vicioso que continua a arruinar o progresso de tantas comunidades jovens.

“Ku Klux Klan” é uma música sobre um grupo terrorista de supremacia branca dos Estados Unidos que nós escrevemos e gravamos em 1978, mas como você viu, os Estados Unidos votou para que Donald Trump se tornasse seu presidente, que é essencialmente um simpatizante do KKK, tudo que ele fala ou faz, aponta para sua simpatia para com esse grupo. Além disso os constantes assassinatos, espancamentos, assédios e intimidações que a população negra dos Estados Unidos sofre por parte de policiais brancos, me leva a crer que a maioria dos polícias (e seus chefes e superiores) possuem afiliações com a KKK e outros grupos com inclinações supremacistas.

RN – No Brasil nos temos uma grande herança cultural africana e uma das maiores misturas culturais da América. Vocês já ouviram algo sobre isso? Tenho certeza que iriam curtir.

Selwyn Brown – Eu já ouvi falar algo sobre isso e sei que a Bahia possui uma das maiores concentrações de pessoas negras no Brasil (nós tocamos lá alguns anos atrás). Eu acho que cada vez mais e mais brasileiros estão abraçando sua herança africana, mas ao mesmo tempo ainda há uma grande divisão social nos que diz respeito a distribuição de riquezas e condições de vida para pessoas negras. O Brasil vem de um longo caminho nos últimos 30 anos em um processo de reconhecer as pessoas como descendentes africanas, mas acredito que ainda há uma longa jornada para que isso alcance a todos.

RN – Para os shows no Brasil, vocês estão preparando algum set list especial? No site setlist.com, o último registro é de um show no dia 24/05 e possui um grande mix de clássicos. O que os fãs podem esperar? Vocês estão planejando trazer algum tipo de merch para essa pequena turnê?

Selwyn Brown – Nos set inclui um meio termo de músicas antigas com algumas novas. Atualmente contamos com oito pessoas na banda: um vocalista e guitarrista, um baterista, um baixista, dois tecladistas e backing vocals, um guitarrista solo e dois membros nos metais. Quanto aos merchs, não tenho certeza se haverá algo vendendo no dia.

RN – Você provavelmente ouve essa questão em todas as entrevistas, mas, a banda está preparando algum material novo? E o que você pode dizer sobre o documentário sobre a história da banda?

Selwyn Brown – Sim! Estamos preparando um novo álbum para os próximos meses e o documentário ainda está em processo de produção.

RN – Muito obrigado pela oportunidade e pela atenção! Por favor, sinta-se a vontade para enviar uma mensagem para os fãs!

Selwyn Brown – Eu que agradeço! Por favor, diga aos fãs que nós estamos muito ansiosos e esperamos por essa apresentação a algum tempo. Agradeço a ele por todos esses anos de apoio à nossa música e nossas mensagens, nós apreciamos bastante, do fundo de nossos corações e esperamos continuar nossa jornada com vocês no futuro. Paz e amor!

Foto – Internet/Divulgação

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