Estilhaçando o silêncio com “Metallic KO”

E aí que me tranquei num exílio.

Não o do disco da semana passada. Exílio mesmo, acampada, não comendo direito, tomando cuidado com o território inimigo. Trancada em um quarto como uma adolescente contrariada que decidiu nunca mais falar com ninguém. Há dias, inclusive, que sequer abro a janela.

Mas as madrugadas seguem em claro.

Ah sim, e o silêncio.

Que até agora não entendi se é uma cura, uma paz, uma necessidade, uma perturbação ou um ponto final.

Mas por incrível que pareça, como uma suposta adulta, tenho lá meus compromissos, e eventualmente preciso sair de casa. E numa dessas, durante a feira de vinis do In-Edit Brasil, encontrei o “Metallic KO“, um (o) lendário disco ao vivo dos Stooges.

E já que silêncio explícito merece barulho explícito, esse vai ser o som da semana.

Eu explico.

Primeiro que chamar esse vinil de disco é quase inadequado. “Metallic KO” é o registro da última apresentação de Iggy & Stooges em sua formação original, nos anos 70 (the last ever Iggy and the Stooges show, diz a contracapa do álbum azul que deixou minha visão turva enquanto o segurava e fazia as contas de quantos dias iria ficar sem comer para comprá-lo).

O convidativo OPEN UP AND BLEED em letras garrafais acima deste anúncio, também informando que a apresentação se deu no Michigan Palace Detroit não colaborou muito para que eu conseguisse segurar meus impulsos, e lá fui eu gastar o dinheiro que não tinha, no histórico vinil que faltava em minha coleção, captado em uma fita K7, ou alguma porcaria do gênero da época.

Ainda na contracapa há um aviso de que o barulho que você ouve no disco é da fita original de gravação usada para documentar o show, e não um defeito de masterização ou prensagem. Então dá pra catar o ~~~~raw power~~~~ de ouvir o vinil e se sentir no meio do show, captando os mínimos detalhes. Inclusive as garrafadas.

Já conhecia o disco por histórias que li em livros, mas principalmente por uma crítica de Lester Bangs que me marcou muito. Naquela porra daquele Psychotic Reactions que eu cheguei a ter, a vida me levou, e agora está esgotado no fornecedor (se alguém quiser me agradar, fazer as pazes ou acalmar minha fúria, tá aí um bom começo).

O disco conta com 6 maravilhosas faixas em versões extremamente provocativas, agressivas e desafiadoras direcionadas ao público que, se já era inicialmente hostil, depois da performance descompensada (e esperada) de Iggy Pop, foi incitado `a fúria ao ponto de começar a atirar objetos (inicialmente ovos, eu acho – quem leva ovos pra um show?) em direção ao palco. Que sim, você ouve claramente na gravação.

E a resposta de Iggy é bem clara durante a música “Rich Bitch”: “vocês podem jogar o maldito gato de vocês que eu não ligo, sua namorada ainda irá me adorar”. <3

E tome mais ovos.

E o disco segue com mais músicas, mais ovos, Iggy pedindo pra platéia atirar mesmo, gritando por um motim, o povo ficando cada vez mais puto, e então ouve-se barulhos de garrafas se espatifando e shit got serious.

É nessa hora que todo mundo decide que é um momento razoável pra se deixar o palco, mas Iggy, sempre ele, resolve dar um ~extra treat~ pro público, e volta pra um BIS (god), perguntando pra platéia o que eles querem ouvir, e se eles .::se acalmariam::. se a banda tocasse Louie Louie. E sim, a última faixa do disco é a porra do cover, que entrou no set por simples desaforo (depois perguntam por que sou assim).

Ao final da música, lógico que temos Iggy saindo do palco não sem antes agradecer a gentileza do público, e o disco é encerrado com um ~emblemático~ barulho de uma garrafa se estilhaçando, certamente em sua direção.

Sei que a vida -infelizmente- não pode ser vivida com a intensidade de um disco dos Stooges. Mas uma música ou outra no meio da madrugada é um bom jeito de começar resolvê-la.

Para ouvir o álbum que não deixa nada nas entrelinhas é só clicar aqui.

 

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