Luke Cage é sobre ser o herói que você gostaria de ser

luke 3Quando somos crianças normalmente nos apegamos aos que julgamos como os  maiores super-heróis. Vestimos capas, queremos voar e possuir um sinto cheio de bugigangas e talvez até uma máscara, afinal temos algo a esconder.

E quando a gente cresce não percebe que podemos fazer coisas heroicas, ainda que aparentemente pequenas. Sem máscaras, afinal queremos mesmo é que as pessoas nos conheçam e admirem.

Tá, não é bem assim que Luke Cage se torna um herói, é claro que ele tem poderes sobre-humanos, mas à primeira vista e até onde ele aguenta, é um cara normal. Tem sua vida, trabalho, paga aluguel – atrasa com frequência – e por aí vai.

Luke, antes Carl Lucas, sabe controlar seus poderes e vive uma vida normal quando problemas demais começam a acontecer no seu bairro. Ora, quem não quer ser o herói do bairro? Nesse caso o Harlem, o que torna a missão um tanto complicada.

Depois dos acontecimentos de Jessica Jones, onde Cage figurou mas não teve sua história aprofundada, ele retorna ao Harlem para lidar com uma vizinhança violenta e problemas comuns, além de trabalhar na barbearia do Pop (Frankie Faison), este um personagem cativante e afável. O paizão, sabe?

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Separe Luke Cage em duas partes: a primeira até o sétimo episódio onde o foco é combater Cornell “Boca de Algodão” Stokes, o dono do submundo das drogas e armas, que possui um bar de onde sai a trilha magistral da série, de fachada.

Stokes é o típico menino pobre, que teve uma infância fodida e encontrou nos meios errados uma maneira de obter poder. Ele é o “dono” do bairro. Respeitado e temido por todos, o rei. Detalhe para o pôster incrível de Notorious B.I.G de coroa em seu escritório.

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Ainda na primeira parte conhecemos Mariah Dillard (Affre Woodard), uma senadora que mostra aos amigos do Harlem e à TV o quanto ela valoriza àquelas pessoas e o orgulho por ter chegado à política sendo uma pessoa “direita”. Quando na verdade o nível de escrúpulos é zero – qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Falta a personificação de que a lei funciona, certo? Sim e ela é Misty Knight (Simone Missick). Fazendo justiça do jeito certo, infelizmente ela vai se deparar com um sistema que não funciona e perceber que o “jeito Cage” de fazer as coisas tem lá e muito o seu valor.

Os outros personagens, como o já citado Pop, o Detetive Scarfe (Frank Whaley) e Shades (Theo Rossi), este principalmente, ajudam a construir a trama com suas histórias paralelas.

A reviravolta que se apresenta a partir da segunda parte, do oitavo episódio, nos apresenta a Kid Cascavel (Erik LaRay Harvey), o vilão que faltava. Teve a infância lado a lado com o protagonista e deixado de um dos lados por motivos familiares, se revolva e volta em busca vingança.

Ainda que co-protagonista na segunda metade da série e objeto da luta final pelo domínio das ações no bairro, Kid não é lá tão essencial e simpático aos olhos, assim. Faz você pensar que a história poderia ter continuado a se focar nos antagonistas da primeira metade, ainda que alguns deles estejam ali.

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Os personagens são bem construídos, como a história que fez Carl se tornar Luke, e o ambiente – o Harlem – é muito bem explorado. Toda a cultura jazzística, negros, latinos e asiáticos; os pequenos negócios locais e aquela coisa de “todo mundo se conhece” é bem bacana.

Luke Cage é, até agora, o universo mais humano, digamos assim, dos super-heróis que migraram para as telas. Os escolhidos da Marvel para o Netflix seguem essa toada, aliás, e isso é muito legal.

Observação pertinente: em Luke Cage um defeito é fazer com que o Harlem pareça muito distante de Hell’s Kitchen e seus acontecimentos, em uma Nova York que mais parece um país. Nada que um ônibus não resolva.

Inclusive, o Universo Cinematográfico da Marvel é, novamente muito mal explorado, com algumas pequenas referências aos acontecimentos do primeiro Vingadores (2012). O que também faz parecer tudo muito distante.

Voltando aos personagens… Um dos destaques da série é o aparecimento de Claire Temple (Rosario Dawson). Figurinha carimbada no Universo Marvel do Netflix, com um currículo de ataduras em Demolidor e Jessica Jones, aqui ela aparece mais forte, também como uma heroína do dia a dia, tal qual Luke.

A personagem é fundamental para costurar – com o perdão do trocadilho – a trama que dará origem aos Defensores (previsão de estreia para o segundo semestre de 2017) que além dos heróis já citados, ainda terá o Punho de Ferro.

Temple também é fundamental para Cage manter o foco e ao mesmo tempo para orientá-lo no sentido de que ele se transforme realmente no Powerman.

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Ainda que à prova de balas e super força, Luke Cage é um herói da vida real, aquele cara bom do bairro, que todo mundo conhece, com orgulho de suas origens e que tem que enfrentar problemas reais, de personagens que sempre estiveram ali e que também são reais.

Devidas proporções (poderes, problemas e coisa e tal), Luke Cage não é o típico herói que gostaríamos de ser quando crianças, mas o herói que gostaríamos de ser hoje, agora, adultos. Ainda que ele relegue tal título (ou fardo), é.

No fim das contas, quantos Pops, Mistys, Claires, Dillards e Cornells não existem por aí? Talvez a gente até conheça alguns deles. E quantos de nós não gostaríamos de ser o Luke do bairro?

Mesmo em naqueles dias mais claros, você ainda vai ver muita gente de blusa e com capuz sobre a cabeça por aí.

Foto: Divulgação/Internet

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