No Dia Internacional da Mulher entrevistamos a Debbie Hell, uma verdadeira #GirlPower da música

13669520_1133177423370770_7028260386156900173_oHoje, 8 de março, é o Dia Internacional da Mulher e para comemorar a data e prestar uma homenagem às nossas leitoras e a todas as colaboradores que por aqui passaram resolvemos fazer uma entrevista exclusiva com uma mulher muito especial pra gente.

Conversamos com a Debbie Hell, uma verdadeira #GirlPower da música. A Debbie já foi colunista do Rock Noize, é redatora, social media, DJ, apresentadora, Youtuber e o que mais der na telha dela. Ah e ela também é nossa amiga de longa data e fazemos questão de não esconder a admiração que sentimos.

Entre muito tempo de conversa ao longo do anos, resolvemos entrevistá-la – tentamos ser sérios, juro – e ela falou sobre as inúmeras festas de rock que teve na noite paulistana, sobre seus projetos pessoais e profissionais e, é claro, sobre feminismo e a importância desse movimento nos dias atuais.

O papo foi muito bacana e vocês confere na íntegra nas linhas abaixo. VALEU, DEBBIE!

Rock Noize: Pra quem não conhece e se é que alguém não conhece, fala quem é a Debbie Hell, o que faz, onde faz, trabalha no quê, escreve pra onde… Tudo!

Debbie Hell: Nossa, uma caraiada de coisa. Sou redatora, DJ, escritora, criei os blogs Ouvindo Antes de Morrer e Música de Menina, sou Spotify Creator, tenho um programa de rádio semanal – o Debbie Records – na Mutante Radio, já comandei as festas No FUN e Gimme Danger, fui colunista de diversos sites (Rocknoize incluso), faço cobertura de shows, brinco de falar com a câmera, dou aula sobre a história das mulheres na música, faço music branding, curadoria, conteúdo e jornalismo musical, enfim, acho que tudo que uma pessoa pode fazer com música, estou envolvida.

Rock Noize: Hoje a gente vê você por aí, em tudo enquanto é lugar na noite paulistana e nem imagina como isso começou. Como foi? Quando você começou a discotecar?

Debbie Hell: Desde quando eu nem tinha idade pra sair, adorava sair para conhecer músicas novas no finado Matrix. Com o tempo fui criando meus próprios sets em CDs-R, e um dia, um clube que nem existe mais (o “Killer Cat Club”) abriu os domingos para “djs iniciantes”. Eu não tinha ideia como fazia pra discotecar, mas fui lá me ofecerer. Marcaram minha discotecagem, entendi a lógica básica, e foi assim, na emoção. Isso já faz uns 11 anos. Depois disso comecei a discotecar no Outs mensalmente, e fui completando o bingo da Augusta.

Rock Noize: Você tem uma forma bem característica de escrever, muito solta, desprendida de regrinhas do jornalismo ou das mídias sociais. Acha que isso influencia pra galera gostar do que você escreve, além do conteúdo, claro?

Debbie Hell: Sempre fui apaixonada por música, e por toda história dos bastidores. Comecei a escrever por acaso, no Ouvindo Antes de Morrer, sem pretensão alguma. Não fiz faculdade de jornalismo ou escrita criativa, apenas vou escrevendo como se estivesse batendo um papo, então minha escola é a dos meus mais sinceros fodassy. Acredito que a galera que acompanha e curte meu trabalho curte esse ~estilo~ de escrita por deixar o conteúdo mais próximo da realidade de uma conversa de bar, e passar credibilidade. É extremamente sincero e eles sabem disso.

Rock Noize: De tudo que você faz, o que você mais gosta de fazer e por quê? Se é que tem algo que goste mais, mas pode ter algo que seja um pouco mais especial ou prazeroso…

Debbie Hell: Depende muito do estado de espírito. Às vezes estou com as tripas reviradas e só botando pra fora um texto bem emocional vai me trazer paz de espírito. Mas também, tem dia que você sai do show de uma banda como os Sonics para resenhar, ou arranja uma exclusiva com o Atari Teenage Riot, são momentos incríveis. Discotecar é sempre um momento mágico, mas acho que fazer rádio é demais. Quando tinha uns 14 ou 15 anos achava que seria o máximo ter um programa de rádio, e no Debbie Records tenho toda a liberdade do mundo, da curadoria musical (inclusive de colocar bandas independentes brasileiras que rádio nenhuma toca), até separar a briga dos meus gatos durante a locução, eu amo essa liberdade e o tanto de pessoas que são atingidas.

Rock Noize: A gente já conversou pra caramba e nunca falamos de feminismo, então aproveito a data (Dia Internacional da Mulher) pra perguntar (risos). Como você vê o feminismo, as atitudes das meninas hoje… Enfim, como você se posiciona?

Debbie Hell: Fundamental. De acordo com o Mapa da Violência de 2015, de 83 países, o Brasil está na quinta posição entre os que mais matam mulheres. A cada 4 minutos uma mulher dá entrada no SUS vítima de violência, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil (70% dos casos é cometido por alguém que a vítima conhece), e 13 mulheres são assassinadas por dia no Brasil. Estou só citando casos de violência extrema, nem entrei em direitos fundamentais de igualdade de salários, direito pelo próprio corpo, dentre tantas outras pautas. Mas como disse, o feminismo é fundamental para combater o feminicídio, e muita coisa mudou de poucos anos pra cá. As garotas não são mais jogadas umas contras as outras como rivais, estão se unindo e conversando cada vez mais, criando redes de apoio, quebrando tabus, não aceitando mais propagandas, cantadas e atitudes machistas, e causando uma verdadeira revolução, mesmo que ainda dentro de uma bolha.

Rock Noize: Você é super engajada e participativa nas redes sociais. Como é servir de referência, como é ser uma pessoa que as pessoas prestam atenção no que você diz quando nós vivemos em tempos de opiniões tão sem embasamento e atitudes tão efêmeras?

Debbie Hell: O meio da música sempre foi muito machista, fato que sempre me irritou profundamente (o que acabou gerando o blog “Música de Menina”). Sempre me tirou do sério eu ter que provar 10x meus conhecimentos para ter a mesma credibilidade de um cara que mal estudou, e isso acontece em qualquer área. A partir do momento em que meu trabalho ganhou maior visibilidade, acredito que não fiz mais que minha obrigação de usar meu alcance para chamar atenção para assuntos relevantes para um mundo melhor e mais justo. Se um post meu fizer uma pessoa que seja repensar uma atitude, um preconceito, já vale a pena. Todo mundo sai ganhando. <3

Rock Noize: Onde a Debbie Hell se encaixa em tudo isso? Você acredita que esse seu jeitão contribuiu para você ser uma autêntica representante do #GirlPower?

Debbie Hell: Hahaha, as Spice Girls estavam certíssimas. Hoje a gente tem um lema muito legal de “Support Your Local Girl Gang”, das garotas se unirem, que é praticamente uma continuação do #GirlPower, e eu acho o máximo. Ouvi demais as riot girls, fui super influenciada pela Kathleen Hanna, o foda-se da Courtney Love, e acredito que meu papel enquanto produtora de conteúdo musical, é dar destaque às mulheres que fizeram diferença na música, e inspirar as garotas que me acompanham. Quando decidi montar um curso sobre história das mulheres na música, foi porque me enlouqueceu saber que o machismo e invisibilidade feminina vinham lá da Grécia Antiga, e não tinha um livro falando sobre isso. Que quem na verdade inventou o rock and roll foi Sister Rosetta Tharpe, uma mulher negra que inspirou toooodos os caras que levaram o crédito, que Poison Ivy que ensinou o Lux Interior a tocar guitarra. Que Billie Holiday foi a primeira pessoa a OUSAR a cantar uma música sobre direitos civis em plena segunda era da KKK. Que Joan Jett foi a primeira mulher a montar e gerenciar uma gravadora depois de tomar 23 “nãos”. E niguém fala sobre isso, ninguém dá esse devido crédito. Acho que meu lugar é falando sobre isso over and over, até as garotas sentirem cada vez mais que não precisam pedir “licença” ou provar nada pra ninguém na música.

Rock Noize: Em casa, tocando nos rolês, no ônibus… O que a Hell escuta e bota pra tocar?

Debbie Hell: De um tudo. Muita coisa que coloco no Debbie Records, é porque estava ouvindo obsessivamente. Faço várias playlists no meu perfil no Spotify também de acordo com meu mood, com direito às minhas guilty pleasures e jazz. Em especificamente uma, a Baby Borderline, eu coloco uma música por dia, de acordo com o som que está rodando na minha cabeça https://open.spotify.com/user/debbiehell/playlist/6kAPMQ6qgS2mTGweKwgEaP

Rock Noize: Você já teve a No Fun, que bombou no Clube Outs durante muitos anos, mais recentemente a Gimme Danger no Squat. Como você vê as festas de rock hoje? Quais as diferenças para quando você começou?

Debbie Hell: As gerações vão mudando. Não dá pra comparar o que era uma festa de rock de quando eu comecei a sair e toda uma cena de new garage rock estava explodindo com Strokes, Yeah Yeah Yeahs e The White Stripes estava explodindo, para os dias de hoje. Acho que hoje em dia a galera está muito mais interessada na experiência como um todo do que descobrir um som ou algo que era muito mais simples no começo dos 00’s

Rock Noize: Às vezes me parece que as pessoas não estão mais interessadas nas festas em si, apenas e raramente no lugar. Parece que não existe mais aquela fidelidade. Como você vê isso?

Debbie Hell: Deus me livre começar aqui uma palestra sobre “tempos líquidos”, mas acho que as pessoas enjoam rápido da fórmula e você precisa estar constantemente se renovando. Você pega exemplo de casas e festas super bem sucedidas e que estão anos a fio no jogo, cada edição é uma loucura nova que se inventa. Numa sociedade de consumo as pessoas só estão preocupadas em consumir freneticamente seja lá o que for, nada se repõe.

Rock Noize: Onde, na internet e fora dela, a gente encontra a Debbie Hell?

Debbie Hell: Vocês me encontram no instagram @debbiehell @debbierecords, podem ouvir todos os programas que já rolaram no Mixcloud, me seguir no Spotify onde eu posto mil playlists, no Youtube onde de vez em quando eu resolvo falar com a câmera, no Medium onde escrevo mais livremente e estão alguns textos que escrevi para outras colunas, e no blog www.ouvindoantesdemorrer.com.br. Quem quiser puxar a ficha criminal pode ir no deboracassolatto.tumblr.com que está mais ou menos atualizado.  Fora da internet provavelmente vão me encontrar discotecando, assistindo a algum show de banda independente ou arranjando confusão 😉

 

 

Foto: Acervo Pessoal Debbie Hell

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