Novos tempos: conteúdos tão efêmeros quanto urgentes

Se você acompanha o Rock Noize talvez tenha notado algumas mudanças, se não notou ou não acompanha a gente explica. De uns tempos pra cá mudamos o foco do site para investir mais tempo em conteúdo de qualidade do que em matérias do dia a dia.

Claro que elas existem, isso é óbvio, afinal elas são a base para um conteúdo maior e de mais qualidade. Cada vez mais estamos publicando matérias longas, mais aprofundadas para quem quer mais informação. É como você lê aí em cima: “Muito mais conteúdo”.

A nossa premissa sempre foi informar com qualidade para quem quer um algo a mais. Sabemos que essa parcela de público é muito pequena, talvez ínfima perto do tipo de público que vemos hoje em dia. Muitos sites fazem uma coisa ou outra ou as duas, assim como nós.

O ponto de partida foi certa vez ouvir de uma amiga que “somos especialistas em hardnews”, aquelas notícias diárias, quase furos de reportagem, publicando antes que todo mundo e admitimos, por vezes foi bem isso mesmo, mas não é mais assim.

Com a urgência e correria em publicar tais “furos” vem uma audiência mais significativa, claro, afinal muito mais gente vê primeiro aqui ou acolá que nos outros. Mas a ideia hoje não é mais essa, é realmente nos fixar como um site de conteúdo acima de tudo relevante.

Nunca tivemos conosco que a audiência é o que mais importa. Longe de hipocrisias, a audiência é importante sim e é o que de fato mantém qualquer veículo de mídia, seja ele nichado – como é a posição que nos colocamos hoje – ou não. É assim que se sobrevive.

Mas decidimos tomar um caminho oposto do que a maioria faz nos tempos atuais. Decidimos que mesmo as notícias diárias têm que ter o mínimo de conteúdo relevante. Não é só assistir o clipe ou trailer. É isso também, mas é saber quem é o diretor, onde foi filmado ou quem são os principais atores e a data de estreia.

Se fosse só o assistir bastaria seguir a página ou acessar o Youtube. Claro, hoje o que mais tem é público que quer exatamente isso. Mas nós não. Nós queremos publicar – e ler também -, informações mais abalizadas e de qualidade. Somos curiosos de nascimento.

Este post foi produzido com base em três situações vividas recentemente. A primeira delas veio de uma matéria especial que fizemos sobre Charles Manson, ele mesmo, o assassino mais infame dos últimos 100 anos, talvez.

Na ocasião produzimos um material que demorou seis horas entre pesquisa, escrita e revisão. A matéria foi muito lida, compartilhada e elogiada, mas um comentário chamou a atenção: “matéria muito boa, mas cansativa”, algo assim que nos colocou a pensar.

Foi um teste para vermos até onde nosso conteúdo ia. Ele foi bem, foi longe, mas este comentário chamou muito a atenção. Na publicação decidimos por abordar aspectos que até então não tinham sido abordados de maneira mais profunda.

Fizemos uma ligação grande com o que Manson tinha a ver com a cultura pop mais do que o sobrenome de um cantor famoso. Mas sim a sua conexão com o cinema, com a música, com as séries e com todo o comportamento de uma sociedade depois do que aconteceu.

A segunda situação vem de uma pessoa que pediu para que fosse desbloqueada em uma das nossas redes sociais porque pra ela era melhor ler as chamadas das matérias do que ter que entrar no site para ler o conteúdo. Isso demonstra muito mais do que a efemeridade e urgência que as pessoas esperam.

Sem mimimi, mas isso demonstrou um extremo desrespeito com todo o trabalho que fazemos por aqui. Não apenas com a pesquisa, com o dia a dia, com a preocupação com a escrita. Mas com o tempo que temos, com aquilo que abrimos mão para produzir esse conteúdo e para com o trabalho inteiro nos quase seis anos deste site.

Certa vez um grande amigo viciado em leitura de livros, sites, HQs e por aí vai me disse que lia até os “créditos”, lia tudo de cabo a rabo. Me chamou a atenção que ele mencionou o respeito por quem doou seu tempo para fazer aquilo, mesmo que fosse apenas escrever os nomes de quem produziu aquele conteúdo. Não esqueci disso e levo para a vida.

A terceira situação aconteceu há pouco tempo quando recebemos o release do lançamento de um clipe de um cantor nacional. Poucas horas depois de recebermos o release o telefone tocou e era a assessoria “cobrando” a publicação da matéria com o clipe.

Infelizmente por conta de tempo mesmo não conseguimos publicar assim que o e-mail chegou, mas o plano era sim publicar. Foi quando em um dos dias seguintes recebemos novamente o mesmo e-mail e de novo, poucas horas depois mais uma ligação.

Compreendemos que nem todo mundo entendeu – ou entende -, a nova dinâmica do Rock Noize e nem são obrigados. Mas percebemos que aquilo era apenas um pedido de “publicação a qualquer custo” e por estes dois motivos decidimos por não publicar a matéria.

Dias depois acabamos por publicar a matéria por outras questões. Esta foi enviada à assessoria e tão pouco foi divulgada nas redes sociais da mesma ou do artista em questão. O que nos faz ter certeza de que apenas a urgência mandou, afinal como dissemos, publicamos alguns dias depois, o que já não valia de nada pois o “assunto já tinha passado” e ela apenas serviu para encher um relatório.

Também por isso, e muitos não entendem, temos a premissa da troca. Se uma banda demandou tempo de gravar uma música, gravar um clipe, sua assessoria divulgar, também demandamos tempo em publicar, bem menos é claro, mas demandamos.

Publicar uma matéria de qualidade, pensada, elaborada em cima de um release, demanda tempo, mas esse é o nosso maior sinal de respeito por um artista, por uma assessoria, produtora, etc. Portanto espera-se minimamente o mesmo.

Um grande e positivo exemplo que tivemos nos últimos dias foi a matéria/resenha da trilha sonora da série Rua Augusta – por isso a escolha da foto acima. Resolvemos fazer uma matéria especial com a divulgação da trilha (que veio da assessoria), aplicando opiniões comportamentais da nossa vivência na noite da Augusta com uma resenha das músicas em si.

Isso deu super certo e ela, a matéria, foi muito mais longe do que esperávamos, com direito a um dos produtores compartilhando e quase 400 compartilhamentos vindos direto do post. Foi um alento de que estamos no caminho certo e com uma proposta bacana.

Enquanto muitos fazem apenas as matérias de divulgação – seja de uma trilha, seja de um show – e em seguida uma resenha, acreditamos que um “corpo completo” é muito mais legal, para nós e para quem lê. Afinal também aprendemos com isso e criamo uma estrutura de começo, meio e fim.

Relutamos em falar sobre esses assuntos e essa mudança no Rock Noize – o outro editor pode me matar a qualquer momento RISOS -, mas é algo que tenho certeza, compartilhamos. Afinal muito desse post saiu muitas vezes de infindáveis conversas que temos.

Inclusive o Zé, o outro editor, é o maior responsável pela publicação de artistas e bandas independentes neste site com um conteúdo elaborado e pensado para fazer a maior e melhor divulgação possível dessa galera que sabemos, precisa tanto, mas também precisa saber valorizar isso.

Em um mundo onde o público compartilha notícias sem saber se são fake news ou apenas pelo título, e já sai tomando opiniões e lados, seguimos o caminho contrário, onde queremos que os cliques e compartilhamos sejam feitos pela qualidade das matérias, pela concordância ou discordância do conteúdo.

As matérias do dia a dia vão continuar, mas como já dissemos, com o máximo de conteúdo relevante que conseguirmos, com matérias especiais, resenhas e críticas. Não somos melhores ou piores que nenhum outro site, tão pouco concorrentes e entendemos que há público para todos os tipos de conteúdos, mas esse é o nosso modelo de trabalho.

Se você chegou aqui certamente é o nosso público-alvo primário, se não nem vai ter lido isso, mas respeitamos a sua opinião e posicionamento. Quem sabe nos esbarramos em outras matérias “menos cansativas por aí” e não tem o menor problema nisso.

Seguimos em frente, com muito mais conteúdo.

 

 

Foto: Divulgação/Internet

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