Os arcos invadiram o cinema de terror (e isso tá bem chato)

Desde sempre eu adoro filmes de terror. Os primeiros que assistia datam do início dos anos 90 quando ainda não haviam as classificações indicativas na TV e Freddy Krueger e Jason Voorhees desfilavam suas matanças no finado Cinema em Casa nas tardes do SBT.

Na época a gente nem sabia o que eram os arcos no cinema, tão pouco spin-offs. No máximo tínhamos as continuações. Veja bem, a duplinha citada acima têm mais de 20 filmes (sequências) e em apenas um eles, de 2003, se encontram, ainda que suas histórias nunca tiveram relação.

Fato que apenas os primeiros são considerados clássicos, o que veio depois era porquê tinha que vir mesmo, continuações fazem parte, nada fora do normal. Agora imagine se o fatídico Freddy vs Jason tivesse suas ramificações. Dá medo só de pensar.

E Alien vs Predador? Minha nossa, conseguiram juntar dois dos meus personagens preferidos da ficção-científica em dois filmes muito ruins. Tá, não é terror mas vale a menção aqui pra contextualizar a história toda.

Bom, mas vamos lá, trazendo para os dias atuais o que vemos hoje é que praticamente todos os filmes de terror têm que ter seus arcos, muito talvez porque os filmes de super-heróis estão fazendo isso com maestria (ao menos a Marvel) e tem dado muito certo e muito dinheiro.

Já com os filmes de terror, para os padrões do gênero, as salas de cinema ficam lotadas e o dinheiro (de novo, para os padrões) enchendo os bolsos das produtoras. Mas sinceramente, prefiro as continuações com seus desmembramentos dentro delas e não as ramificações.

Quem está acostumado com esse tipo de cinema já pensa logo de cara em Invocação do Mal. Veja bem, já foram dois filmes – um terceiro está em produção -, e duas divisões: Annabelle e Annabelle – A Origem do Mal, este além de ramificar a história de Ed e Lorraine Warren ainda foi um spin-off.

Mas como nem tudo são flores, é claro que a história não ia parar por aí, além do terceiro Invocação mais dois outros filmes estão sendo produzidos para completar o arco. O primeiro deles e já com data de estreia, trailer e tudo mais é A Freira.

O longa vai contar a história, também em forma de spin-off, da freira Valak – principal antagonista de Invocação do Mal 2 -, de como ela se tornou uma entidade maligna e atravessou décadas até o confronto com o casal.

Quem também chegará às telas é o Homem-Torto, outro personagem que apareceu no segundo Invocação. Ainda que sem grande destaque foi fácil para os produtores continuarem bebendo da fonte e pensar em um filme solo para contar sua história.

“Esses filmes são a nave-mãe e não podemos deixar que ela perca a força”

Ainda não se sabe o que virá em Invocação do Mal 3, mas James Wan (diretor, roteirista e produtor da franquia) disse o seguinte: “Esses filmes são a nave-mãe e não podemos deixar que ela perca a força”. James, amigo, ela já perdeu!

Convenhamos que dos quatro filmes citados, apenas o primeiro Invocação do Mal foi realmente bom. O segundo tomou o mesmo caminho sem grandes novidades ainda que com a inclusão de dois novos “vilões”. Admito que a mística em volta da boneca Annabelle precisava ser contada.

Tá, ela foi contada pifiamente no primeiro filme e o segundo, A Criação do Mal, contou sua origem de maneira mais pífia ainda. Antes do filme a história parecia ter uma premissa interessante, mas ficou nisso mesmo e roteiro não desenrolou isso da maneira que deveria.

Viu, James? Já perdeu! Mas como desgraça pouca é bobagem, é claro que a versão feminina do Chucky (que agora só falta falar e andar) vai ter uma terceira parte. O que virá? Sinceramente e literalmente, não quero nem ver. Isso sem falar que Invocação 3 possivelmente ganhará uma continuação e novos desmembramentos.

Outro filme recente de terror que coloco no mesmo bom patamar de Invocação do Mal é A Entidade. O versátil Ethan Hawke mandando muito bem e um vilão extremamente interessante, além de um final inesperado fizeram do filme um dos melhores do gênero nos últimos anos.

A continuação já sabem, né? Se perdeu e foi bem fraca, mas confesso ainda me borrar pensando que um próximo pode estar a caminho e pior ainda: gerar ramificações, sejam com novas histórias continuando as já contadas ou com spin-offs.

Obviamente que tudo isso tem explicação e já falamos delas por aqui, mas vamos de novo. Primeiro ponto é que não é preciso criar e pensar em novas histórias e personagens; é muito mais fácil desenvolver o que já está criado.

Segundo é que quando você já tem um nome, sabe aquela coisa de “dos mesmos criadores de tal filme” ou “a boneca que aterrorizou não sei quem lá”. Então, é bem por aí. Terceiro é pra quê mexer no que está dando certo, vamos esgotar as possibilidades e ganhar dinheiro com tudo isso.

É claro que em alguns aspectos personagens precisam ter suas histórias contadas, até para completar o contexto e como dizemos, “amarrar” as coisas. Mas em outros casos isso é completamente desnecessário dada a irrelevância de personagens como o Homem-Torto, por exemplo.

Infelizmente o cinema de terror se tornou popular a ponto de chegar nesse nível. Nada contra a popularidade, muito pelo contrário, mas não no sentido de abusos dessa forma. É claro que Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo já foram longe demais, assim como Halloween e tantos outros que outrora romperam barreiras e marcaram uma época, mas é aquilo, as histórias passam apenas por um personagem central.

Lógico que excessivas continuações são prejudiciais, hoje Jason, Freddy e Michael Meyers já perderam a mística e o público, o interesse. Mas imagina se eles tivessem desmembramentos? Seria mais prejudicial ainda. Penso que com universo de Inovação do Mal vai ser a mesma coisa, infelizmente.

Já são três filmes e duas ramificações e mais duas por vir, ou seja, sete. É muito e se já se perdeu agora, imaginem o que está por vir. Isso sem falar nas fórmulas mais do que desgastadas: uma família que (às vezes se muda) começa a ser aterrorizada por um espírito maligno possuindo uma das filhas.

Além disso, pode ser um pensamento muito crítico, mas penso que se um filme já foi bom, para que estragá-lo com continuações infundadas e arcos desnecessários?

É o caso do excelente Babadook. O filme é derivado de um curta de 2005 e ganhou às telas em 2014, sendo aclamado pela crítica e público. Não me venham com derivados, spin-offs ou qualquer outra coisa – ainda que isso vá acontecer em algum momento, anotem aí.

Hoje o terror e seus universos são um nicho que gera muito dinheiro e por consequência perde a qualidade, a originalidade e se tornam cansativos. Se até os de super-heróis, que são baseados em décadas e décadas de quadrinhos, já estão menos interessantes que antes, imagine como será o cenário de Ed, Lorraine e sua turma de espíritos malignos.

Já deu né, James?

 

Fotos: Divulgação/Internet

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