Precisamos parar e repensar

destaque-415857-chris-cornell-chester-bennington“Eu estou segurando. Por que é tudo tão pesado? Segurando muito mais do que eu posso carregar”. Esse é o refrão de Heavy, primeiro single do último disco do Linkin Park com Chester Bennington à frente do vocal principal da banda. Agora ele tem um significado ainda maior.

No dia 18 de maio de 2017 fomos acometidos com a notícia de que Chris Cornell, vocalista e líder de uma das bandas mais importantes da história do rock, o Soundgarden, cometera suicídio se enforcando em um quarto de hotel logo após um show.

Pouco mais de dois meses depois, no dia 20 de julho de 2017 Chester Bennington faz o mesmo em sua casa. Algo que nunca vamos saber é porque ele o fez no dia em que Cornell completaria 53 anos. Acaso? Proposital? Nunca saberemos, o que sabemos é que mais um dos ídolos de muitos tirou a própria vida.

“Eu estou segurando. Por que é tudo tão pesado? Segurando muito mais do que eu posso carregar” – Heavy

Acima de Chester Bennington vocalista do Linkin Park, quem se suicidou foi o pai, o filho, o marido, o amigo, o ser humano. A culpa? De tudo e de todos. Se me arrependo de coisas que disse a respeito do grupo e de Chester sem pensar? Sim, muito. Se sinto culpa? Sim, muito.

A causa mortis que sairá no atestado de óbito de Bennington será uma, duas ou até três, mas nele nunca sairão as causas não clínicas de sua morte. Pressão, por fazer um disco melhor que o outro, para vender mais, para emplacar mais hits, para agradar público e crítica, para mudar, para não mudar, para cantar mais, para ser melhor.

Drogas, álcool, remédios. Pode ser, mas eles nunca vêm sozinhos. Qual a raiz do problema? Abuso na infância? Cobrança? Casamento? Diálogo (falta de)? Elas são muitas na vida de uma pessoa de 41 anos.

Ainda mais em se tratando de uma pessoa pública, conhecida mundialmente e que tem que lidar na mesma proporção com um mundo egoísta onde nos sentimos no direito de falarmos o que dá na telha escondidos atrás da merda de um computador.

“Estou cansado de ser quem você quer que eu seja. Me sentindo tão sem esperança…” – Numb

Há 20 anos atrás ninguém imaginava que o que viria de um computador poderia ser tão destrutivo quanto as ruas que andamos. Tão violento e sem sentido. Que machucaria tanto e que daria voz à pessoas sem o mínimo de senso crítico de si mesmas, tão más.

Recentemente Chester causou estranhamento ao reagir de forma tão diferente aos comentários sobre o novo disco do Linkin Park, “One More Light”. Sua reação mobilizou até o amigo Corey Taylor, que o respondeu dizendo que ele “deveria se sentir agraciado por tantas pessoas ainda irem aos seus shows para ouvirem suas músicas”. A resposta foi uma espécie de alento, de “mude o foco para o que é bom, pois o ruim pode te destruir”. Destruiu.

Claro, não foi só isso, mas por tudo que já vi e vivi com uma exposição infinitamente menor – longe de comparações – onde também já fui vítima de comentários maldosos, brincadeiras idiotas e julgamentos, causa um estrago enorme. Some isso aos problemas relatados acima e você chega no limite, no caso de Bennington ele não aguentou e ultrapassou, para um outro lugar.

“Tudo que você me diz me deixa um passo mais perto do limite e estou a ponto de explodir” – One Step Closer

Nem bem superamos a dor de perder Chris Cornell e nos deparamos com a perda de Chester Bennington. Ambos com sua devida importância para o rock e para a música nos seus tempos. Temos que repensar e é urgente, caso contrário vamos continuar perdendo essas pessoas e pior, podemos perder quem está do nosso lado, literalmente. E quem sabe até, nos perder.

É preciso rever nosso pensamento, aquilo que fazemos, que escrevemos, como falamos. Vivemos em tempos mais sensíveis é verdade, mas isso faz parte da evolução, da humanidade e justamente por isso devemos ter um controle e um filtro maior.

Quem somos nós para julgar alguém que se mata ou algo que pensamos “ser bobagem” na vida do outro quando depois de um dia estressante de trabalho, estudo ou seja lá o que for a única coisa que a gente quer é abrir uma cerveja, fumar umzinho ou até comer feito loucos apenas para aliviar a pressão?

Precisamos parar de apontar o dedo na cara dos outros e julgar suas dores como se fossemos donos da verdade, como se elas fossem nada. Como se tristeza ou depressão fossem idiotices e de achar que precisamos ser felizes a todo custo.

E olha só: não somos pessoas públicas, tão pouco conhecidas no mundo inteiro, por milhões de pessoas que pagam para os ver. Não entramos no estúdio para fazer um trabalho que a empresa está depositando milhares de dólares e que tem que dar retorno.

Será que se assim fosse não faríamos a mesma coisa? Será que aguentaríamos tantas críticas infundadas e maldosas de gente sem o menor escrúpulo? Quantos casos menos divulgados temos visto de gente que comete suicídio por conta de bullying, virtual ou real?

No início dos anos 2000 quando este site nem sonhava em existir o Linkin Park fez parte da minha vida em muitos momentos, bons e ruins. Lembro-me de cada disco comprado, cada show assistido, da única camiseta que tive. Hoje parte disso foi arrancada de mim e a culpa também é minha.

Curiosamente há alguns meses passei uma situação que me levou de encontro à uma das músicas do Linkin Park mais compartilhadas desde que foi anunciada a morte de Chester, Leave Out All The Rest. Isso me reaproximou da banda que há muito tempo não ouvia com tanta frequência. Não espere que a dor o reaproxime das pessoas, simplesmente não se afaste delas.

A gente precisa repensar, urgente, em como lidamos com as coisas, com as pessoas e com nós mesmos. Caso contrário alguém pode não aguentar mais.

“É mais fácil partir do que encarar toda essa dor aqui sozinho” – Easier To Run

 

 

Foto: Divulgação/Internet

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