Rock Noize Entrevista: Confronto

Na quinta-feira, 24 de outubro, entrevistamos Felipe Chehuan e Felipe Ribeiro, vocalista e baterista, respectivamente, da banda brasileira de metal/hardcore Confronto.

No papo falamos muito sobre “Imortal” (capa/foto), seu novo disco (escute aqui), sobre as letras de suas músicas, a realidade da periferia de diversos países e também sobre internet.

Você pode saber mais sobre “Imortal”, sobre a nova turnê e ainda assistir ao clipe da faixa-título nesse endereço.

Confira na íntegra a entrevista nas linhas abaixo.

Rock Noize: Gostaria de saber como foi o processo de gravação do “Imortal”. Como foi produzido, quando tempo levou e até de onde vieram as inspirações para as músicas do disco. 

Felipe Ribeiro: O “Imortal” foi gravado em um período de um ano e meio, juntando pré-produção, produção, ensaio, gravação, mixagem, masterização… Fizemos tudo com bastante calma e esse disco levou um ano e meio para ficar pronto. A inspiração veio de um resgate de muitas bandas que nos influenciaram na adolescência como Black Sabbath, Down, Pantera, Alice In Chains, Sepultura [mais antigo] e muita coisa atual também como Hatebreed e Lamb Of God. Enfim, bandas que sempre estiveram presentes na nossa vida. A inspiração foi um apanhado de tudo isso junto com a vontade de fazer um álbum coeso, maduro. E o resultado está aí, 12 sons, “Imortal” que saiu dia 5 de outubro.

RN: O que vocês pensam do cenário atual do metal/hardcore no Brasil. A impressão que tenho é que o som que vocês fazem, lá fora parece mais difundido…

Ribeiro: Acho que está acontecendo muita coisa boa. Acho que as coisas estão melhorando muito. O Monsters Of Rock é um exemplo disso porque antes você não imaginava que essas bandas viriam ao Brasil para tocar num festival dessa magnitude, dessa proporção, com 40 mil pessoas. Isso já é uma amostra de como as coisas estão melhorando, de como estão crescendo. Hoje em dia estamos vendo muitas bandas surgindo, muitos espaços para shows. É uma renovação muito grande. Temos 14 anos de banda e sempre somos colocados como referência passando por diversos estilos, do hardcore ao metal. Somos uma banda que nos sentimos confortáveis. Temos muito público quando tocamos com Ratos de Porão, também com Dead Fish, com bandas de diferentes cenas, o que é bem legal, esse lance de agregar. Desde 2003, nas nossas primeiras turnês europeias já víamos esse conceito de união entre metal e hardcore acontecendo lá fora. Naturalmente nos encaixamos nisso. Mas víamos que aqui no Brasil não era uma coisa tão difundida. Ficamos muito felizes de ver isso acontecer hoje em dia. Inclusive quando estamos lá fora as pessoas falam “Cara, tá acontecendo alguma coisa na América Latina”, algo que não nos dávamos conta. Desde quando começamos a ir pra lá, várias bandas queriam vir pra cá mas não tinham conhecimento do que estava surgindo aqui. É o que chamamos de “Revolução do Metal Latino Americano”. É uma renovação porque todas as pessoas tinham como princípio básico o Sepultura, uma banda que canta em inglês, que tinha sua base de público fiel aqui mas que precisou ir para fora, tomar proporções colossais, absurdas, para depois voltar para ser valorizada.

RN: Vocês acham que vocês fizeram esse caminho?

Ribeiro: Não. Fizemos o inverso. Procuramos nos estruturar aqui, cantar em português, criar uma base de público e estrutura, e levar o que temos daqui para lá e não trazer de lá para cá. As pessoas lá quiseram ver isso de perto. Essa curiosidade de conhecer as coisas da América Latina com o tempo foi aumentando cada vez mais.

Felipe Chehuan: Definitivamente o Brasil entrou na rota dos grandes shows. Coisa que antes, víamos bandas em fim de carreira tocar aqui e agora não. Temos casas de shows descentes, promotores fazendo seu trabalho com excelência e as bandas do Brasil estão se superando, estão mostrando mesmo que não chegaram para brincar. Não estamos perdendo para ninguém. Temos excelentes bandas aqui de todos os estilos.

Ribeiro: O que é legal é que vemos as bandas que temos como referência, como Sepultura, Krisiun, Ratos de Porão… São bandas que tem 25, 30 anos e ficou uma lacuna, e as pessoas lá não sabiam o que estava acontecendo aqui. Hoje em dia essa revolução do metal latino americano é exatamente isso. Tem muita coisa acontecendo aqui, muitas bandas surgindo. As bandas chegaram para subverter o que já existia.

Chehuan: Agregar o que já existia com o novo e mostrar a cara nova e que tem muita coisa boa por aqui e muitas coisas boas para se falar. Em um país como o nosso, assunto é o que não falta e bandas tem aos montes por aí. No Nordeste, no Sul, no Centro-Oeste, no Sudeste. Vamos absorver o que vem lá de fora? Vamos, a influência é muito bom mas vamos levar daqui para lá também.

RN: O que gostamos são as letras,  o que vocês falam… Vocês colocam o dedo na ferida, falam dos problemas do Brasil inteiro…

Chehuan: Isso sempre foi muito natural. Não só do Brasil mas da América do Sul. Fomos fazer uma turnê pelo Equador e Colômbia que fomos para cidades pequenas de lá e vimos que é como o nosso bairro. Tocamos em Medelim e vimos o quanto é parecido com o Rio de Janeiro, principalmente na quantidade de favelas. Chegamos a conclusão de que todo o povo latino americano, todo mundo abaixo da linha do equador, incluindo a África, são povos sofridos e estamos no meio disso tudo. Tudo isso é combustível para que transformemos em música e coloquemos para fora de uma maneira agressiva.

Ribeiro: Nada melhor do que o metal para colocarmos isso para fora.

RN: O que pensamos é que é uma letra de rap, de protesto e de mostrar a realidade, em cima de metal… 

Ribeiro: Já ouvimos muito “vocês são o Racionais do metal” e isso nos dá o maior orgulho. Talvez por sermos uma banda oriunda da periferia é inevitável que exista essa comparação. Se você for ver a periferia, os subúrbios e os lugares mais afastados do centro são repletos de problemas sociais e dificuldades. Porém nesses lugares é onde se descobre talentos culturais e esportivos. Você vê gente realmente indignada com a vida que leva mas que não se conforma. Esses são os verdadeiros imortais, são aqueles que levantam cedo e encaram um dia de trabalho, estudo e contrariam as estatísticas.

Chehuan: O conceito do disco é justamente esse, o que é imortal.

Ribeiro: É uma injeção de ânimo para aqueles que acreditam mesmo, que acreditam que tem a vida como um exemplo de transformação.

RN: Vocês vão fazer 15 anos, tem quatro discos, um DVD ao vivo… O que mudou de lá para cá, em vocês como banda, como pessoas, o fato de viajar, fazer shows na Europa, ir para países como Equador, Colômbia, Peru… O que tudo isso agrega?

Chehuan: O que mudou, pra mim foi a visão de mundo. Eu tinha como referência de vida o lugar que eu nasci, o meu bairro, a minha cidade, meu estado. Aquilo para nós é normal. Quando tivemos a chance e a banda nos deu essa chance, de viajar, atravessar o oceano, conhecer outros lugares e ver como lá as coisas dão certo, me deu uma injeção de revolta. Foi um choque cultural muito grande e pensei “Agora que não vou me calar mesmo”. Se eu já era indignado com muita coisa então agora é a hora de botar o dedo na ferida mesmo e isso nos deu uma motivação de querer lutar e continuar com a banda cada vez mais. Talvez o fato de ser tão difícil ter uma banda no Brasil fez com que nos uníssemos mais. Nós como banda somos muito amigos e nesses 15 anos, com todas as dificuldades, talvez foi até uma defesa que no Confronto todo mundo que chega vai entrando para a equipe. Foram poucas as pessoas que fizeram parte da nossa família que saíram sabe… Quase ninguém. O roadie, a galera que marca show, são os mesmos desde sempre. Quem marcou nosso primeiro show foi o Tatá que nem tinha a Sob Controle. Ele marcou porque gostou da banda e de lá para cá sempre nos ajudou. Talvez tenhamos isso como uma defesa pois sabemos a dificuldade que é e nos agarramos um no outro e levamos todos juntos.

Chehuan: Com relação ao que mudou… Mudou tudo. Da estrutura, da forma de tocar. Fomos crescendo juntos com o tempo que se passou. Quando começamos não tinha lugar para tocar, era muito difícil. Fazíamos um som avesso ao que existia na época. Quase não tinha banda do nosso estilo e viemos com uma proposta nova, tudo novo e fazendo tudo aquilo que queríamos fazer. Não nos adequamos a nada, fazíamos só o que queríamos. Nesse período o que conquistamos foi respeito e admiração, e aprendemos muito com todo mundo. Em todos os lugares que vamos, aprendemos. Dividimos experiências e isso é um combustível para continuar, para seguir.

RN: Vocês acham que chegaram em um patamar diferente depois do DVD e do lançamento recente de “Imortal” do metal/hardcore brasileiro? Como referência?

Chehuan: É difícil dizer mas as pessoas nos falam isso. Mas não vejo dessa forma. Vejo que existe muita gente de expressão, muita gente nova. Somos mais um que está na guerra com todo mundo. Não estamos aqui para competir com ninguém, para disputar espaço. Estamos aqui para somar. Queremos somar, agregar.

Ribeiro: Ficamos muito felizes de ouvir que somos referência e que nos colocam em outro patamar. É motivo de muito orgulho mas para nós, estamos na guerra. É lógico que vemos uma evolução. Hoje tocamos para muito mais pessoas, temos uma estrutura. O Confronto virou uma pequena empresa. Muita gente depende de nós. Temos equipe, muita coisa envolve a banda. Ficamos muito felizes por isso. Mostra um crescimento e é fruto de um trabalho que vem sendo feito no decorrer desses 14 anos.

RN: O Confronto veio junto com uma “geração internet” e o que a internet ajuda e prejudica, se prejudica, de que forma? Vocês fazem um som para uma geração, independente da idade, totalmente internet, que vai no Youtube assistir ao clipe, que vai no Basecamp escutar o disco, enfim… 

Chehuan: Acho que ajuda. Só soma sabe… A internet veio como um veículo direto, onde nós mesmos soltamos informações da banda e captamos informações instantaneamente. Estamos envolvidos com toda essa galera e também fazemos o mesmo. O disco está sendo vendido pela Metal Store e também na Punknet, está disponível no Basecamp tanto para compra quanto para streaming. Isso de cara já tem um feedback positivo pois a pessoa vai lá, escuta e muitas das vezes entra em contato para comprar o disco físico. O vinil sairá em breve. Cara, acho que não só para nós aqui no Brasil, mas também para os fãs do Confronto ao redor do mundo, a internet é o primeiro veículo, é o primeiro caminho, o mais rápido para se ter acesso ao clipe, a banda. Sem internet hoje, não existe banda que possa sobreviver.

Ribeiro: Quer ver a prova? A nossa gravadora entrou em contato e nos disse que não estava dando conta de tantos discos que estão saindo, que já estava acabando. Cara, o disco saiu dia 5 [de outubro]. Para você ver, o cara ouve on line mas quer ter o disco.

RN: Nós tivemos uma época muito grande de downloads e vocês vão lançar o vinil, e outras bandas que já conversamos também estão lançando seus discos em vinil. Vocês acham que se inverteu, que agora as pessoas querem mais é ter os discos físicos mesmo?

Ribeiro: Não sei se mais pessoas querem ter o físico mas acho que a galera que ter o físico, a galera que quer o download, a galera que curte o vinil… Tem espaço para todo mundo.

Chehuan: O vinil voltou forte né cara. Hoje você encontra todo mundo lançando em vinil novamente. Tanto sendo prensado aqui como no exterior. Isso é demais cara. O “Santuarium” [disco anterior a “Imortal”] também saiu em vinil na Itália, na Rússia. Na Europa e nos Estados Unidos na verdade, o vinil nunca acabou. Um dos motivos de nós querermos lançar em vinil foi que nas nossas primeiras turnês só tinha CD e o cara chegava na banca [merch dentro dos shows] e perguntava se tinha o vinil. Ele comprava o CD mas queria o vinil. No “Santuarium” batemos o pé, tem que sair em vinil entendeu. Tanto que de lá para cá todos os lançamentos do Confronto sairão também em vinil. Eu sou um colecionador, um amante do vinil.

RN: Vocês tem alguma previsão de quando sai o vinil?

Cheruan: No começo de 2014. O primeiro lançamento é o CD e logo em seguida vai sair o vinil.

RN: Quais os próximos shows de vocês?

Ribeiro: A turnê já começou. Já tocamos em Porto Alegre, Sapiranga, Curitiba, Londrina, Guarulhos. Então, dia 17 [de novembro] é o show de lançamento no Rio de Janeiro. temos shows marcados no Espírito Santo dia 21 de dezembro, Macaé dia 22 de dezembro. Provavelmente vamos fazer em Brasília, Goiânia, interior de São Paulo, vamos tocar em Pindamonhangaba. Até dezembro estamos com a agenda cheia. Para quem quiser ter acesso as informações do Confronto é só curtir a nossa página no Facebook (curta aqui). Tem todas as informações lá.

RN: O que podemos esperar dessa turnê e de um próximo  disco?

Ribeiro: A turnê provavelmente vai ser longa. Pois temos muitos lugares para ir no Brasil. Queremos tocar no Brasil inteiro, diferente das outras vezes em que lançávamos um disco e fazíamos turnê na Europa e depois vínhamos para cá. Dessa vez começaremos pelo Brasil, depois América do Sul, depois Europa. Temos planos de ir para os Estados Unidos no ano que vem. Vai acontecer. Por incrível que pareça já estamos fazendo músicas novas.

RN: É mesmo? Vocês vão escrevendo na estrada?

Chehuan: Cara, em casa, na estrada…

Ribeiro: Estávamos ensaiando o setlist para essa turnê aí no meio um puxou uma ideia…

Chehuan: Aí já segura, já grava ali… A gente não desperdiça nada sabe… Isso é fruto de um entrosamento né cara?! Muito tempo tocando juntos e rola de uma maneira natural. Para nós não importa se acabou de sair um disco, curtimos tocar, estar juntos, tocar juntos. O processo de composição pode rolar numa passagem de som. Surge uma ideia e porque não gravar essa ideia? Isso pode se transformar num riff de uma próxima música. Vou deixar aqui, no ar, que muitas surpresas virão a nível de lançamentos. Teremos umas coisas muito diferentes que vão sair por aí em 2014 que vão ser legais mão posso falar…

 

Agradecimentos à Sob Controle, The Ultimate Music e ao Confronto pelo papo e pela oportunidade.

 

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