Shadowside: confira nossa entrevista exclusiva com a Dani Nolden e escute o novo álbum

IMG_3762Quatro anos. Esse foi o tempo entre a nossa primeira entrevista com Dani Nolden e a segunda, que vocês podem conferir na íntegra nas linhas abaixo. Na época, em 2013, a Shadowside trabalhava no lançamento do incrível “Inner Monster Out”, que saiu dois anos antes.

Nesses quatro anos nós mudamos, a Shadowside mudou, o mundo mudou. Os dois primeiros eu tenho certeza que para melhor. Agora Dani e sua trupe lançam “Shades of Humanity” e shades pode ter vários significados em português: sombra, escuridão, tonalidade.

Ao abordar temas diretamente ligados a esses significados, que sempre existiram, mas que parecem mais acentuados em tempos atuais, a Shadowside mostra algo difícil no rock como um todo: se manter atual sem fugir da sonoridade que a caracterizou.

Essa credencial torna “Shades of Humanity” o melhor álbum do grupo, superando seu antecessor (outra raridade na música em geral). Nessa entrevista abordamos toda essa evolução, a entrada de um novo integrante, temas atuais (feminismo, aborto, entre outros) e é claro, uma esperada turnê pelo Brasil.

Leia a entrevista inteira, pois vale muito à pena e ao final dê o play no disco de metal nacional do ano, “Shades of Humanity”.

Rock Noize: Vocês estão de álbum novo, mas como foi a vida depois do lançamento do “Inner Monster Out”? Quais foram as mudanças de 2011 até aqui?

Dani: A única grande mudança foi a entrada do nosso novo baixista, o sueco Magnus Rosén, que é mais conhecido por ter sido baixista do Hammerfall. Depois do lançamento do nosso álbum anterior, o “Inner Monster Out”, nós fizemos muitos shows. Foram cerca de 60 shows em toda a turnê, mais da metade deles na Europa, então acabamos adquirindo bastante experiência na estrada, que é fundamental para toda banda. Isso fez com que a gente pensasse ainda mais em capturar a energia do show na gravação do álbum, e acredito que conseguimos isso com o novo ábum, o “Shades of Humanity”, que é o nosso trabalho mais pesado e intenso, a maior mistura dos nossos lados mais extremos e mais melódicos que já fizemos até hoje. Queríamos riffs pesados com melodias bem marcantes, com cara de som feito pra ser tocado ao vivo.

Rock Noize: Assim como o anterior, “Shades of Humanity” também foi produzido na Suécia. Qual a ligação de vocês com o país e como anda o metal por lá? Sabemos que o metal é forte nos países nórdicos, eles conhecem muito do metal brasileiro?

Dani: O Metal na Suécia está sempre em alta. É um tipo de som bastante popular por lá. Nossa ligação com a Suécia hoje está mais forte por causa do nosso baixista, mas já tínhamos essa conexão porque temos trabalhado com os produtores suecos Fredrik Nordström e Henrik Udd já há alguns anos, e isso se deve pelo fato de que eles são dois dos melhores produtores que trabalham no estilo. Somos fãs da sonoridade que eles tiram, tudo fica pesado, grandioso. Já trabalhamos com outros produtores renomados antes, já trabalhamos com outro estrangeiro, mas foi trabalhando com eles que encontramos a parceria ideal no Shadowside. Eles entendem muito bem o que nós queremos fazer e onde queremos chegar.

Eles conhecem um pouco do metal brasileiro, mas não a fundo. É interessante que a maioria conhece só um pouco, mas quem conhece de verdade, é apaixonado pelo metal brasileiro, e isso não é algo que eu observei só nos países nórdicos, mas em todo lugar. Um fã nosso da Alemanha é simplesmente louco por tudo que vem do Brasil. Ele coleciona tudo do metal brasileiro. É interessante ver que o heavy metal do nosso país infelizmente não tem muita exposição por lá, mas encanta quando consegue atingir o público.

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Rock Noize: “Shades of Humanity” vai tratar de temas pesados como aborto, depressão e até o desastre em Mariana, além de histórias de superação que tem muito a ver com tudo isso. Como vocês chegaram nessas ideias, em tratar disso?

Dani: As letras do “Shades of Humanity” são um pouco do que eu estava sentindo e vivendo na época. Os meninos da banda preferem deixar que eu faça as letras. Eu sempre pergunto o que eles acham dos temas, das letras finalizadas, mas eles acabam deixando essa tarefa comigo.

Eu não tive a experiência de um aborto pessoalmente, mas vejo muita controvérsia sobre o assunto, o que me inspirou a escrever. Não é um julgamento. Eu acho que as mulheres que abortam têm seus motivos, assim como as que não abortam, custe o que custar, também têm. Eu não tenho uma opinião formada porque, apesar de ser mulher, não me sinto capaz de julgar uma situação que não vivi. Mas senti a necessidade de abordar, nessa música, que se chama “What If”, o ponto de vista daquela criança que ainda não nasceu. “What If” significa “e se”. E essa é a grande questão… e se? E se o embrião já é capaz de sentir? Será que ele está consciente? A partir de quando ele está consciente? É um assunto complicadíssimo… e para as minhas amigas mulheres, por favor, não pensem que isso é um julgamento. É só uma reflexão para que a decisão, qualquer que seja, sempre seja consciente. No momento, se eu tiver que tomar uma posição oficial, é ser contra o aborto… mas sou a favor do direito de escolha. Eu não acho que faria e não aconselharia alguém a fazer, mas acho muito complicado obrigarmos alguém a colocar uma criança no mundo, especialmente em um país como o Brasil, onde já estamos cheios de crianças abandonadas. Acho que ainda não somos um país maduro o suficiente pra confiar que o problema está resolvido se dermos uma criança indesejada pra adoção. O problema é mais profundo do que parece…

Enfim, o “Shades of Humanity” é bem concentrado nessa “escala de cinza” que tinge a humanidade. Nada é rigidamente bom ou ruim, por isso os “Tons de Humanidade”, que é a tradução de “Shades of Humanity”. Nossos valores morais são confusos, nossas atitudes são ambíguas e nossos pensamentos são caóticos. E ainda assim, a humanidade tem algo de belo, mesmo com toda essa capacidade de destruição que nós temos. Tentei escrever, com todos esses temas, como somos capazes de destruir uma cidade inteira por causa de ganância, mas ao mesmo tempo ainda temos a esperança de sempre existir algo bom dentro de nós.

Rock Noize: Como foi para a banda trazer o Magnus Rosén e claro, como foi para o Magnus entrar na banda? O que podemos esperar dessa parceria?

Dani: A gente sente que o Magnus é a peça que estava faltando na banda. Os músicos que passaram pela Shadowside antes são ótimos e fizeram excelentes trabalhos, mas às vezes as personalidades e expectativas simplesmente não combinam. O Magnus sabe exatamente o que cada música da Shadowside precisa, é incrível como mesmo quando ele está fazendo algo simples, o “arroz com feijão”, ele soa preciso e dá um peso fantástico para a música. Além disso, ele é muito fácil de lidar, sabe ouvir e gosta de participar, é muito legal como ele se enturmou com a gente logo no começo. Parecia que já fazíamos parte da mesma banda há anos. A ideia inicial era apenas chama-lo para gravar, porque gravaríamos na Suécia e não queríamos apressar a escolha do novo baixista, mas conversando sobre as gravações, sobre as músicas, sobre os planos e sobre como gostaríamos que o novo baixista fizesse parte da composição das músicas, logo ficou claro que nós tínhamos que fazer o convite. E para nossa sorte, ele aceitou. Ele gostou muito dessa ideia de poder compor, e trouxe duas músicas excelentes que ele fez em parceria com o Andy La Rocque, guitarrista do King Diamond. O Magnus gosta muito do Brasil, então acho que isso também foi determinante pra ele aceitar o nosso convite. Ele esteve aqui 8 vezes e adora o nosso país!

Rock Noize: Dani, hoje o movimento feminista está mais difundido do que nunca e cada vez mais vemos mulheres fazendo música, encabeçando bandas e outros movimentos. Como você se porta em relação a isso e o que todas essas mudanças e essa representatividade trouxeram para a sua vida dentro da Shadowside?

Dani: Eu não me considero feminista. E sei que vou ser xingada por isso (risos). Eu me considerava feminista antigamente, mas eu acho que o movimento ficou radical demais e não consigo mais me identificar com ele. E não gosto do nome “feminismo”… a maioria das pessoas associa “feminismo” ao contrário do “machismo”, e as feministas dizem que isso não é verdade, que o feminismo é a luta por direitos iguais… ora, se um nome está dando uma impressão errada e estamos precisando explicar o que significa, é sinal de que a coisa não foi muito bem batizada. Acho que um “igualitarismo” seria melhor (risos).

O meu problema é que eu acho que tudo está radical demais. Sei que é só uma parte que é radical, mas é uma parte que infelizmente faz muito barulho e está dividindo as pessoas, nosso povo está brigando por causa de político, de feminismo, de machismo, e estamos todos esquecendo que somos tudo parte de um povo que luta pela mesma coisa: uma vida melhor pra todo mundo.

Eu acho ótimo que cada vez mais mulheres façam coisas que antigamente não nos era permitido. Mas acho que tais coisas já são permitidas faz tempo, só que só estamos percebendo isso agora. As pessoas falam de machismo desde que a Shadowside começou, mas eu não sabia da existência disso até começarem a falar sobre isso, porque eu simplesmente não sofri preconceito algum por ser uma mulher cantando em uma banda. Nunca senti estranheza, nunca fui hostilizada, nunca recebemos uma oportunidade sequer por eu ser mulher, nem tiraram qualquer oportunidade de nós por eu ser mulher. Acho que o feminismo deve lutar justamente por isso… para fazer com que as mulheres percebam que não existe mais “trabalho de homem” e “trabalho de mulher”. Se você gosta de algo, faça. Se falarem que mulher não sabe fazer alguma coisa, simplesmente faça e prove o contrário. O que as pessoas não entendem é que discutir não adianta.

Recentemente, houve toda aquela polêmica por causa da loja de móveis que disse que mulher não sabia fazer design… ora, a única forma de provar que ele está errado é mostrando belos designs feitos por mulheres. Não se combate ignorância com grito, se combate com fatos. Quando o metal feito por mulheres começou a aparecer, diziam que metal com mulher era uma droga. As mulheres simplesmente provaram o contrário ao longo dos anos. Ainda tem gente que pensa assim? Tem… é claro que tem. Mas eu penso de verdade que a opinião dessa pessoa vai mudar no instante que ela ouvir algo que a agrade. Por mais que alguém tenha preconceito com mulher em banda, preconceito algum resiste ao que uma música da qual gostamos nos faz sentir. Provavelmente ele vai demorar a admitir que gosta, mas eu não tenho dúvida que é uma questão de tempo.

Acho que a questão de “empoderamento feminino” tem muito mais a ver com fazer com que as mulheres percebam que elas podem ser e fazer o que quiserem, do que com tentar mudar a forma de pensar de alguns homens. O modo de pensar de uma sociedade inteira leva tempo pra mudar, só que a minha opinião é que depende mais de nós mulheres acreditarmos que somos capazes. Se sabemos que somos capazes de algo, não precisamos que alguém valide isso. Apenas vamos lá fazer, e a nova geração vai crescer vendo mulheres fortes, independentes, que fazem aquilo que querem… e isso inclui ser dona de casa, se ela assim quiser! Infelizmente, vejo o movimento feminista criticando mulheres que gostam de ser submissas e donas de casa, dizendo que elas foram doutrinadas, mas não percebem que cada pessoa é única, individual. Eu e uma amiga minha fomos criadas da mesma maneira, crescemos juntas, e ela adora cozinhar e eu odeio.

A luta pelo direito da mulher de fazer o que quiser foi e é importantíssima. Sim, eu não estaria cantando em uma banda de metal hoje se o mundo ainda fosse como era há 60 anos atrás. Mas o movimento hoje se desviou de “luta pelo direito de fazer o que quiser” para “luta para fazer com que todas as mulheres recusem ser o que era visto como papel da mulher há décadas atrás”. E se desviou da luta por direitos e por respeito para o “nós contra eles”. Machismo não se combate com guerra, e sim com fatos, diálogo, educação e uma mudança gradual na cultura. Falta um pouco de empatia e respeito dos dois lados… quando as pessoas começarem a se colocar umas no lugar das outras, nada disso vai ser necessário.

Existem diversos assuntos a serem resolvidos na vida das mulheres, como violência doméstica, assédio, que são os verdadeiros problemas. Só que violência e estupro são cometidos por criminosos, por monstros, não por homens de bem. E não podemos, de jeito nenhum, tratar todo homem como um criminoso em potencial. Meu pai, meu sogro e os pais dos meninos da banda são todos senhores com mais de 60 anos, que cresceram com a tal cultura machista, e são homens educados, gentis, respeitosos e que nunca fizeram mal a mulher alguma, então temos que ter muito cuidado para não confundir a luta pela igualdade com um rótulo injusto a todos os homens. Meu pai me apoiou em tudo que eu quis fazer na vida, e uma dessas coisas foi jogar futebol.

Penso que, ao mesmo tempo que o feminismo quer lutar pelo direito das mulheres, deve lutar também pelo direito dos homens, como direito a uma licença-paternidade mais longa, o fim do serviço militar obrigatório para os homens, e uma busca verdadeira pelo direito real de as pessoas serem aquilo que elas querem ser. E isso vale para homens e mulheres.

Rock Noize: Vocês já tocaram em inúmeros países, ganharam prêmios coletivos e individuais. “Shades of Humanity” é a conquista do mundo pela Shadowside?

Dani: Eu espero que seja, conquistar o mundo parece algo divertido! (risos) Brincadeiras à parte, nós só queremos tocar, fazer o maior número de shows que pudermos. O álbum já entrou na lista dos 5 mais vendidos aqui no distribuidor do “Shades of Humanity” no Brasil, a Die Hard Records, ficou cerca de 6 ou 7 semanas entre os 25 mais vendidos e tocados em um uma plataforma que mede vendas de sites como iTunes, Amazon e playlists de rádios dos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Escandinávia. O álbum está sendo muito bem recebido, lançamos um clipe recentemente, que é na verdade um curta-metragem, para a música Alive, que está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=EF9Tv5USAYg e espero que as pessoas gostem tanto desse trabalho quanto a gente gostou de fazê-lo!

Rock Noize: Tem alguma surpresa no disco, algo que vocês planejam para a turnê? Quando a gente vai ver vocês detonando nos palcos brasileiros?

Dani: Em breve, eu espero! Começamos a conversar sobre shows, então espero que logo a gente possa anunciar novidades com relação a uma turnê e shows aqui no Brasil. Sobre as surpresas… bem, vai ter algo interessante no show, sim. Principalmente por parte do Raphael e do Magnus. Esses dois estão aprontado e têm conversado bastante sobre o assunto (risos). Só sei que a energia vai ser grande!

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Rock Noize: Vocês foram uma das primeiras bandas que entrevistamos pessoalmente (http://rocknoize.com.br/entrevista-dani-nolden-vocalista-da-shadowside/) e cá estamos nós de novo conversando. Agradeço a oportunidade e contém com a gente, sempre! Arrebentem e esperamos vê-los novamente. Agora deixem um recado para os fãs de vocês por aqui.

Dani: Eu que agradeço pelo apoio, muito obrigada pelo espaço! Espero que curtam o nosso novo álbum “Shades of Humanity” e espero vê-los em breve em algum show. Um abraço!

 

 

 

Fotos: Shadowside/Divulgação

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