Shun, Andrômeda e a hipocrisia

Desde que o trailer da nova série dos Cavaleiros do Zodíaco foi lançado pela Netflix os últimos dias têm sido de muitos questionamentos dos mais ávidos pelo anime – mais legal de todos os tempos. Eles poderiam ser pela nova abordagem da saga das 12 Casas ou até mesmo sobre o uso de novas tecnologias para contar a história.

Até foram, mas em muito menor proporção do que um “mero” detalhe: Andrômeda não é mais Shun, é Shaun. Sim, o cavaleiro da armadura rosa agora é uma amazona, ou cavaleira se preferirem. E o que há de mau nisso? Absolutamente nada.

Mas bom, como a internet também dá voz aos idiotas, o mau se instaurou e infelizmente ele não veio do diabólico Mestre do Santuário e sim de vozes que, ao meu ver, apenas querem ser ouvidas entre uma polêmica e outra do “seu” anime favorito.

De acordo com sites nacionais foram maisd e 15 mil dislikes no trailer oficial lançado pelo Netflix, frente há quase 30 mil likes, ou seja, metade não gostou e o argumento era a mudança na personagem que dará vida à Andrômeda. Um argumento um tanto ridículo, né?

Mas primeiro, deixa o tio aqui explicar uma coisa: Não é o “seu” anime, se fosse você poderia fazer dele o que bem entender, mas não é, portanto conforme-se e se o Cavaleiro de Andrômeda ter virado uma mulher o ofendeu tanto a solução é simples: não assista.

Isso mesmo, vire as costas pela sua paixão de infância, deixe lá suas lembranças e faça a sua criança interior crescer. Afinal, pra dizer o mínimo, marmanjo questionar isso é no mínimo infantilidade. Pra falar bem a verdade só fui perceber que Andrômeda era mulher lá pela terceira vez que vi o trailer.

Quer saber? Foda-se. No melhor sentido de foda-se. Isso não me ofendeu, tão pouco ofendeu minha masculinidade. Em tempos onde as mulheres têm cada vez mais representatividade – e continuam lutando por isso, ainda que umas não tão sabiamente -, é um alento ver uma das figuras centrais, que vai “pras cabeças”, dos cavaleiros sendo mulher.

“Ah mas tem a Saori, a China, a Marin e outras”. Tem, claro que tem, mas a primeira delas, ainda que seja a Deusa Athena, ainda bebe da fonte da princesa indefesa que precisa ser protegida pelo príncipe encantado (no caso, quatro). Já as outras duas têm papéis bem bacanas, mas totalmente secundários e sequer podem mostrar o rosto.

Sinal dos novos tempos? Tendência? Produtores, roteiristas e diretores querendo fazer parte do politicamente correto? Jamais vamos saber, mas que isso não altera, ou não deveria, em nada a história de Cavaleiros do Zodíaco, é fato.

“É uma nova interpretação, um novo ângulo”

Quem não gostou da “transformação” de Andrômeda provavelmente não vai ligar a TV ou o computador para assistir Saintia Shô. Sim, os Cavaleiros vão ganhar uma versão onde TO-DAS as cinco serão mulheres em 2019.

Foram anos de gente imitando o famoso “Ikkkiiiiiiii” do irmão fracote e de cabelo verde. Foram anos questionando a sua vontade de querer combater. Foram anos dizendo “a armadura dele tem peitinhos”. Foram anos questionando sua armadura rosa.

E quando ele usou seu cosmo para esquentar o Hyoga na Casa de Aquário? Que absurdo! Irônico. E olha só, Shun (spoiler) se tornou o Imperador do Inferno. Bom, se você não assistiu a Saga de Hades, agora já sabe. Justo ele, que tanto recebeu alcunhas durante os mais de 30 anos de Cavaleiros do Zodíaco se tornou um deus. Depois de tudo isso durante anos, reclamar da troca de Shun por Shaun me soa um tanto hipócrita.

E por falar em Hyoga, o Cavaleiro de Cisne sempre foi o meu favorito. Foi o primeiro de bronze que tive, inclusive pelas semelhanças de apego com sua mãe. Deixa eu dizer de novo: CISNE, CIS-NE! Um animal que é notado pela sua beleza e delicadeza, símbolo de elegância no reino animal. Talvez o segundo na linha sucessória de “piadinhas infames”.

É triste ter que usar algo que amo tanto, algo que pode parecer tão banal quando um anime, para tentar trazer uma reflexão, que é basicamente o que a equipe deste novo Cavaleiros do Zodíaco trouxe, inclusive seu roteirista Eugene Son foi obrigado a deixar as coisas importantes que tem a fazer para explicar isso.

“Quando começamos a desenvolver a série queríamos mudar um pouco. Todos os conceitos principais que fizeram Saint Seiya ser o que é continuam fortes…. Mas 30 anos atrás um grupo de homens lutando para salvar o mundo sem mulheres por perto era o padrão”, disse.

Ele continuou: “Hoje o mundo mudou. Estamos acostumados a ver homens e mulheres trabalhando lado a lado… Eu sabia que isso seria controverso… Mas é uma nova interpretação, um novo ângulo”. É meio absurdo o cara ter que vir a público explicar essas coisas, enfim.

É melhor algumas pessoas pararem de reclamar feito velhos ranzinzas e aceitar, fim. Shaun está entre nós e eu não sei vocês, mas eu vou assistir e Cavaleiros do Zodíaco vai continuar sem meu desenho (juntando tudo numa ânfora só) favorito da vida.

Seja bem-vinda, Shaun de Andrômeda!

 

 

Foto: Divulgação/Internet

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