Som da Semana: Dia da Mulher – Hole

Hole-Live-Through-ThisBiscat que tira quase um ano de ~período sabático~ e volta logo no dia da mulher pra tacar fogo na porra toda.
Voltei, mores. Mas com menos tempo porque minha vida é um inferno, e não dá tempo nem de fazer as coisas que eu odeio e sou obrigada, imagina as coisas que gosto e são debouas. Então o Som da Semana só vai rolar uma vez por mês, mas continua se chamar Som da Semana porque eu sou imbecil.
Se vocês ficarem com saudades, podem colar lá no meu site www.debbiehell.com.br lá tem coisa o tempo todo porque sou escrava de mim mesma.
E se vocês forem de SP, curtirem uma festa, um som massa, tatuagem, banda, ou só forem psicopatas mesmo, podem colar na minha festa, a Gimme Danger. A próxima já é dia 17 🙂
Agora chega, vamo falar de som.

A princípio achei que devesse falar do “Celebrity Skin” considerando o ponto que pretendo levantar. Mas ao ouvir os primeiros segundos de Violet percebi que o buraco era mais embaixo e a coisa toda começou no álbum “Live Through This”.

 

Foi ouvindo Violet, que lembrei quantas vezes toquei essa música inconsequentemente em qualquer pista, berrei o refrão com as amigas pelas ruas, mesas de bar e sabe deus mais onde, cantei sozinha no quarto, arranhei na guitarra, e quando vi já estava cantando pra gata enquanto pensava na coluna.
Lembrei também que uma das fotos mais bonitas do meu casamento é de eu e mais 3 amigas (estas de fases e núcleos completamente diferentes da minha vida), cada uma com uma história e adolescência diferentes, nos espremendo pra cantar essa música juntas.
E então começa Miss World, música que quase tatuei outro dia. Quanto mais o tempo passa, mais cada segundo do clipe, cada frase cantada por Courtney faz mais sentido.
Aliás, tudo começou por causa do visual. Que a gente sabe que nem é dela, né. Quem chegou com esse estilo babydoll (ou vestidinho de boneca), sapatinho de boneca, lacinho, cabelo esgrenhado, maquiagem de loca (conhecido como kinderwhore), foram as meninas do Babes in Toyland, mas foda-se elas que se resolvam. Mas não é nem dessa fase que eu tô falando.
Voltando ao começo do texto:
Na ~minha época~ (é ridículo dizer isso) roqueira não podia usar maquiagem, brusinha, rosa, saia, salto, ou qualquer outra coisa que remetesse ao feminino. Pelo menos na escola. Porque isso era coisa de patricinha (não acredito que tô tendo que escrever isso). Aí (ainda não existia a polícia da internet no facebook, mas tinha a polícia dos coleguinha no ginásio) era PROIBIDO você ouvir um Garotos Podres e usar um gloss ou qualquer porcaria rosa. Acho que era até proibido menstruar, não lembro direito. Mas enfim, mal existia camiseta de rock com modelagem feminina, IMAGINA uma marca voltada, ou algo assim?
Sério, em 15 anos mudou coisa pra caralho, vocês não tem noção. Aí no meio dessa história toda me surge ela. Courtney LOVE. O nome já era uma afronta. Que roquera me usa um sobrenome desses!? E de cara veio o clipe de Celebrity Skin. Com uma guitarra rosa. E um baixo de glitter. E umas meninas pendurada de vestido de princesa. Rosa. E ela cheia dos brilho. E rainha da porra toda. E a baixista do Smashing Pumpkins no meio. Mas quem mandava era ela, não dava nem pra reparar nos caras. Enquanto isso ela se divertia, e uma hora era sexy e encantadora, outra hora pegava a guitarra e era demonha.
Usando rosa. E brilho.
E é ridículo ter que escrever em 2016, ainda mais na minha idade, mas Courtney Love foi fundamental na minha vida pra eu entender, ainda na pré-adolescência, que eu podia ouvir a podreira que fosse, ser a demonha que fosse, e usar ROSA (inclusive ter dois laços tatuados nas pernas tem muito a ver com isso pra vocês que tanto perguntam).
Tá, mas não vou falar de Celebrity Skin porque ele foi o tapa na cara, o baque, o primeiro kit de maquiagem. Vou continuar aqui com o Live Through This.
 
A capa. O rímel borrado, a coroa, a ironia da coisa toda. Como eu queria esse disco em vinil. um pôster. A essa altura já estamos no clássico Jennifer’s Body que é seguido da também inesquecível Doll Parts que tem a máxima “I fake it so real I am beyond fake”.
Mas se eu ficar falando das músicas e letras não vou sair daqui nunca. Não tenho nem emocional pra analisar isso agora. E quando a gente não tem emocional, a gente faz a jornalista e aparece com uns fatos aí pra ~enriquecer~ o artigo.
Como o lance do disco ter sido lançado 4 fucking dias depois do Kurt ter se matado.
Outra coisa interessante que encontrei foi que quando estava compondo o disco e procurando integrantes para essa fase pré-gravação, e o anúncio de Love foi o seguinte:
“[I want] someone who can play ok, and stand in front of 30,000 people, take off her shirt and have ‘fuck you’ written on her tits. If you’re not afraid of me and you’re not afraid to fucking say it, send a letter. No more pussies, no more fake girls, I want a whore from hell.”
“I want a whore from hell”. Juro por deus, quero fazer camisetas com essa frase.
Bom, no final das contas, o álbum que mistura grunge e punk rock foi um sucesso imenso de público e crítica e super premiado, enquanto a Courtney ficou com a fama de mercenária, assassina de marido, doida, essas coisas.
Na verdade, você gostando ou não (não sou eu dizendo, são outros jornalistas), a Courtney Love é a cantora da banda grunge liderada por uma garota de maior sucesso comercial, vendendo mais de 3 milhões de discos dos EUA em sua fase inicial. Além disso, Love teve uma importância incrível na terceira onda do feminismo, e sua atitude subversiva condizente com suas letras endossavam a mensagem que ela queria passar. Querendo ou não, ninguém enxerga que é uma mulher high profile na mídia cantando abertamente sobre feminismo.
E pra mim, humilde criatura adolescente dos anos 90, Courtney foi fundamental pra me mostrar que não existem limites. Que eu poderia ser uma bitch from hell, and that’s fucking fine!
Eu nem imagino o tormento que deve ser estar dentro desta cabeça 24/7, mas o que me resta é deixar aqui o meu obrigado em pleno dia da mulher, por me mostrar que coroa de princesa, batom vermelho, rímel borrado, um monte de palavrão, e um rastro de caco de vidro de garrafas quebradas de alguma confusão porque você falou o que pensa e foda-se, combinam muito bem.
Para ouvir o álbum  “Live Through This” é só clicar aqui.

DebbieHell comanda os blogs Ouvindo Antes de MorrerMúsica de MeninaDebbie Records e não sabe a hora de parar. 

Leia outros textos da Debbie na “Som da Semana” clicando aqui.

Foto: Divulgação/Internet

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