A formação continuada dos professores representa uma das condições fundamentais para melhorar a qualidade da educação brasileira.

O conhecimento pedagógico não permanece estático: novas pesquisas, transformações sociais, mudanças curriculares e diferentes necessidades dos estudantes exigem atualização profissional permanente.

Como professor de Educação Física, acredito que investir na qualificação docente significa reconhecer a complexidade do ensino e a responsabilidade do poder público na construção de oportunidades de desenvolvimento profissional.

Entretanto, essa formação não pode ser reduzida à realização de cursos ocasionais ou à obtenção de certificados. É necessário garantir continuidade, condições de participação e aplicação dos conhecimentos na realidade escolar.

A formação continuada dos professores não pode ser tratada como atividade secundária

A profissão docente exige conhecimentos específicos que precisam ser desenvolvidos ao longo de toda a carreira. A formação inicial representa uma etapa indispensável para o exercício do magistério, mas não consegue antecipar todas as situações que serão enfrentadas durante a trajetória profissional.

Mudanças nas metodologias de ensino, novas tecnologias e transformações na organização das escolas apresentam desafios que exigem atualização. Além disso, a experiência profissional permite identificar necessidades que nem sempre são plenamente compreendidas durante os cursos de licenciatura.

Na minha visão, existe uma diferença entre reconhecer a necessidade de aperfeiçoamento e responsabilizar individualmente o professor por sua qualificação. O desenvolvimento profissional exige iniciativa, mas também depende de oportunidades oferecidas pelos sistemas de ensino.

Uma política pública consistente precisa compreender a formação continuada como parte do funcionamento da educação.

Não considero adequado tratar a atualização docente como responsabilidade exclusiva de profissionais que, muitas vezes, já precisam conciliar planejamento, avaliações e diferentes compromissos institucionais.

Investir na qualificação significa oferecer condições para que o professor desenvolva novos conhecimentos e possa utilizá-los em benefício dos estudantes.

O que a pesquisa Talis 2024 revela sobre a qualificação docente no Brasil?

Os dados internacionais demonstram que os professores brasileiros reconhecem a importância da atualização profissional, mas também encontram obstáculos para participar dessas atividades.

Segundo a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis) de 2024, divulgada pela OCDE em outubro de 2025, aproximadamente 90% dos professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental que participaram de atividades de desenvolvimento profissional nos doze meses anteriores consideraram que essas experiências produziram impacto positivo em suas práticas de ensino.

O percentual ficou acima da média de 55% registrada entre os sistemas educacionais da OCDE participantes da pesquisa. Esse resultado demonstra uma avaliação favorável das atividades realizadas pelos docentes brasileiros pesquisados.

Entretanto, considero importante destacar que se trata de uma percepção declarada pelos profissionais, e não de uma medição direta dos efeitos dos cursos sobre os resultados de aprendizagem dos estudantes.

As barreiras de acesso também aparecem nos dados

A mesma pesquisa identificou dificuldades relevantes para a participação em atividades de formação. Entre os professores brasileiros avaliados, 57% apontaram a falta de apoio do empregador como obstáculo ao desenvolvimento profissional.

Outros 52% mencionaram conflitos entre os horários dos cursos e suas jornadas de trabalho, enquanto igual percentual indicou custos elevados como dificuldade.

Na minha avaliação, esses resultados revelam uma contradição: existe reconhecimento da importância da formação, mas nem sempre são oferecidas condições adequadas para realizá-la.

Não basta incentivar que o professor participe de cursos. É necessário discutir disponibilidade de horários, apoio institucional e condições de acesso, respeitando as diferenças entre redes e vínculos profissionais.

A legislação reconhece a formação continuada como parte da valorização docente

A qualificação dos profissionais da educação possui respaldo na legislação brasileira. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), em seu artigo 67, estabelece o aperfeiçoamento profissional continuado entre os elementos da valorização dos profissionais da educação.

A legislação contempla, inclusive, a possibilidade de licenciamento periódico remunerado para essa finalidade, nos termos aplicáveis, além de prever período destinado a estudos, planejamento e avaliação dentro da carga de trabalho.

Outro marco relevante é a Lei nº 14.817, de 16 de janeiro de 2024, que estabelece diretrizes para a valorização dos profissionais da educação escolar básica pública.

Seu artigo 5º determina que a formação continuada seja promovida e estimulada pelos sistemas de ensino mediante programas permanentes com planejamento plurianual. A norma contempla aspectos como atualização dos conhecimentos, necessidades específicas de qualificação e valorização da escola como espaço formativo.

Entendo que essas disposições demonstram que a formação não deve depender exclusivamente de ações pontuais realizadas conforme a disponibilidade momentânea de recursos.

Garantias legais precisam ser transformadas em oportunidades reais

A existência de previsões legais não significa que todas as redes ofereçam as mesmas condições de participação.

Estados e municípios possuem responsabilidades próprias na organização de seus sistemas educacionais, enquanto estatutos e planos de carreira estabelecem regras que precisam ser observadas conforme cada vínculo profissional.

Na minha visão, o desafio está em transformar as diretrizes nacionais em programas acessíveis, planejados e compatíveis com as necessidades dos professores.

Uma política formativa precisa ter continuidade institucional, evitando que mudanças administrativas interrompam iniciativas relevantes ou façam os profissionais recomeçarem processos de qualificação sem justificativa pedagógica.

Cursos e certificados não são suficientes para melhorar o ensino

Uma das questões que considero mais importantes é a necessidade de avaliar a qualidade das atividades formativas. A quantidade de cursos realizados não demonstra, isoladamente, que houve desenvolvimento profissional significativo.

É possível oferecer diversas palestras durante o ano sem que os conteúdos abordados estejam relacionados às dificuldades enfrentadas pelos professores. Da mesma forma, cursos excessivamente teóricos podem apresentar limitações quando não estabelecem relações com a prática pedagógica.

Acredito que uma formação eficiente precisa partir de problemas concretos, apresentar conhecimentos fundamentados e oferecer oportunidades para refletir sobre sua aplicação.

Isso não significa que toda formação deva apresentar resultados imediatos. Estudos teóricos, pesquisas e discussões conceituais também são fundamentais para ampliar a compreensão profissional.

Entretanto, considero necessário estabelecer objetivos claros. Um programa voltado à alfabetização, por exemplo, precisa dialogar com as necessidades dessa etapa. Já uma iniciativa destinada ao ensino médio deve considerar suas características curriculares e pedagógicas.

Na minha avaliação, a formação continuada não pode ser transformada apenas em uma exigência burocrática para progressão profissional. A certificação possui importância administrativa, mas o objetivo central deve ser ampliar conhecimentos e melhorar as condições de ensino.

Educação inclusiva e tecnologias exigem conhecimentos especializados

As necessidades de desenvolvimento profissional também podem ser identificadas por meio de pesquisas educacionais.

De acordo com a Talis 2024, 48% dos professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental pesquisados relataram elevada necessidade de formação para ensinar estudantes com necessidades educacionais especiais.

Além disso, 39% apontaram necessidade elevada de desenvolver competências relacionadas à utilização da inteligência artificial no ensino e na aprendizagem.

Esses indicadores demonstram que a formação continuada precisa acompanhar desafios específicos da atividade docente, evitando programas que apresentam conteúdos genéricos para profissionais com necessidades diferentes.

A inclusão exige preparo e apoio institucional

Considero especialmente importante que a formação voltada à educação inclusiva seja acompanhada de recursos, acessibilidade e profissionais especializados, conforme as necessidades dos estudantes e a legislação aplicável.

O professor regente precisa compreender estratégias de ensino adequadas, mas não pode ser responsabilizado individualmente por todas as demandas de apoio especializado.

Da mesma forma, a utilização de tecnologias digitais exige conhecimentos sobre avaliação de informações, proteção de dados e possibilidades pedagógicas dos recursos disponíveis.

Na minha visão, oferecer um curso sobre inteligência artificial sem garantir acesso à infraestrutura necessária pode limitar sua aplicação.

A atualização profissional precisa estar associada às condições reais das escolas. Sem essa articulação, existe o risco de produzir expectativas que os profissionais não conseguem atender por razões estruturais.

A escola também deve ser reconhecida como espaço de formação profissional

A formação continuada não acontece exclusivamente em universidades ou instituições que oferecem cursos certificados. Parte importante do desenvolvimento profissional pode ocorrer nas próprias escolas, por meio de estudos coletivos, acompanhamento pedagógico e troca de experiências.

A Lei nº 14.817/2024 reconhece expressamente a escola como espaço de formação dos profissionais da educação.

Na minha avaliação, essa orientação merece atenção porque permite construir programas relacionados aos desafios específicos de cada comunidade escolar.

Professores que atuam em uma mesma instituição podem identificar dificuldades recorrentes, discutir metodologias e analisar resultados pedagógicos de maneira coletiva.

A troca de experiências precisa ter organização

Acredito que o diálogo entre profissionais é importante, mas não substitui automaticamente uma formação fundamentada.

Reuniões pedagógicas podem contribuir para o aperfeiçoamento quando possuem objetivos definidos, referências confiáveis e tempo adequado para análise.

Também considero relevante a participação de universidades, pesquisadores e profissionais especializados, permitindo que as experiências escolares sejam relacionadas aos conhecimentos científicos produzidos na área da educação.

O trabalho coletivo precisa reconhecer a autonomia profissional e as particularidades das disciplinas.

Uma escola que organiza oportunidades permanentes de estudo pode fortalecer seus processos pedagógicos, desde que essas atividades sejam incorporadas ao planejamento institucional e não representem simplesmente novas tarefas acrescentadas à rotina.

A qualificação precisa respeitar as particularidades de cada disciplina

A formação continuada também deve considerar que os professores desenvolvem conhecimentos específicos de suas áreas de atuação.

Embora existam desafios comuns relacionados à avaliação, à inclusão e à organização pedagógica, as necessidades de um professor de Matemática podem ser diferentes daquelas enfrentadas por profissionais de História, Língua Portuguesa ou Educação Física.

Como professor de Educação Física, considero relevante que a formação contemple conhecimentos sobre práticas corporais, metodologias de ensino, inclusão nas atividades, segurança e avaliação da aprendizagem.

Essas questões exigem atualização profissional e precisam estar relacionadas aos objetivos curriculares da disciplina.

O Ministério da Educação mantém referências à Rede Nacional de Formação Continuada de Professores, organizada em colaboração com instituições públicas de ensino superior e voltada a diferentes áreas do conhecimento, incluindo Educação Física.

Na minha visão, iniciativas dessa natureza demonstram a importância da colaboração entre universidades e sistemas educacionais.

Entretanto, a oferta precisa ser acompanhada de avaliação sobre sua adequação às demandas profissionais e às características dos territórios atendidos.

Não considero adequado oferecer os mesmos conteúdos a todos os docentes sem reconhecer suas necessidades específicas. Uma política de qualificação precisa combinar formação pedagógica geral e aprofundamento nas diferentes áreas do currículo.

Como transformar a formação continuada em uma política pública permanente?

Acredito que uma política de formação continuada precisa começar por um diagnóstico das necessidades profissionais. As secretarias de Educação devem conhecer as características das redes, as etapas atendidas e os desafios enfrentados pelas instituições.

Informações disponibilizadas pelo Inep, por meio dos indicadores de adequação da formação docente, podem contribuir para compreender a relação entre a formação dos professores e as disciplinas que lecionam.

Entretanto, esse indicador não mede diretamente a qualidade ou a efetividade dos cursos de formação continuada. Para essa finalidade, são necessários mecanismos específicos de avaliação.

Na minha visão, programas consistentes precisam estabelecer prioridades, organizar cronogramas e garantir condições para a participação dos profissionais.

Planejamento, financiamento e avaliação devem caminhar juntos

Uma alternativa é construir planos plurianuais de formação que combinem estudos realizados nas escolas, cursos oferecidos por instituições qualificadas e oportunidades de aprofundamento profissional.

Também considero importante reconhecer diferenças entre professores iniciantes e experientes. Os primeiros podem necessitar de acompanhamento mais próximo, enquanto profissionais com maior trajetória podem contribuir por meio de atividades de orientação e compartilhamento de conhecimentos.

O Ministério da Educação desenvolve iniciativas específicas de formação. Em julho de 2026, por exemplo, divulgou informações sobre a Formação Continuada 2026 destinada a gestores e coordenadores de escolas em tempo integral.

Considero que essas iniciativas podem contribuir para o desenvolvimento das redes, mas sua existência não dispensa programas locais permanentes.

A avaliação também precisa ultrapassar a contagem de inscrições e certificados. É necessário compreender se os participantes consideram os conteúdos relevantes, se conseguem aplicá-los e quais dificuldades permanecem.

Investir na formação docente é investir na capacidade de ensinar melhor

Acredito que a formação continuada precisa ser compreendida como um compromisso permanente com a qualidade da educação brasileira.

O professor exerce uma profissão que exige atualização, reflexão e domínio de conhecimentos específicos. Entretanto, essas responsabilidades não podem ser utilizadas para transferir individualmente aos profissionais todos os custos e dificuldades de sua qualificação.

Os resultados da Talis 2024 demonstram que muitos professores reconhecem efeitos positivos das atividades formativas, mas também identificam obstáculos relacionados a horários, custos e apoio institucional.

Na minha visão, enfrentar essas barreiras representa uma responsabilidade dos sistemas educacionais e precisa fazer parte do planejamento das políticas públicas.

Também considero necessário reconhecer que a formação continuada não resolve, isoladamente, todos os problemas da educação. Melhorar as condições de trabalho, garantir recursos pedagógicos e oferecer infraestrutura adequada continuam sendo responsabilidades importantes.

Uma formação de qualidade pode ampliar as capacidades profissionais, mas sua aplicação depende das condições oferecidas pelas instituições.

Defendo que as políticas educacionais deixem de tratar a qualificação docente como uma sequência de eventos ocasionais e passem a organizá-la como parte permanente do desenvolvimento da carreira.

Isso exige planejamento, participação dos professores, colaboração entre instituições e acompanhamento dos resultados.

A formação continuada não deve ser vista como uma obrigação adicional imposta ao professor, mas como uma oportunidade profissional que o poder público precisa ajudar a garantir.

Como professor de Educação Física, entendo que aprender continuamente faz parte do exercício responsável do magistério. Entretanto, considero indispensável que esse processo respeite as diferentes necessidades profissionais e permita a aplicação dos conhecimentos desenvolvidos.

A educação brasileira precisa de professores preparados para enfrentar desafios que se transformam ao longo do tempo. Para isso, não basta exigir atualização: é necessário oferecer caminhos concretos para que ela aconteça.

O compromisso com a qualificação docente representa, portanto, uma escolha de gestão educacional que deve ser acompanhada por recursos, planejamento e responsabilidade institucional.

Quando o desenvolvimento profissional deixa de depender de iniciativas isoladas e passa a integrar uma política pública permanente, a escola encontra melhores condições para aperfeiçoar suas práticas e responder às necessidades dos estudantes.

Artigo de opinião — Douglas Silvano — CREF nº 040024-G/SC

Douglas Silvano é professor de Educação Física em Sombrio, Santa Catarina, e atua em iniciativas relacionadas a políticas públicas, à educação e ao desenvolvimento do esporte.

Créditos da imagem: https://www.pexels.com/pt-br/foto/professora-dedicada-atuando-em-sala-de-aula-em-buenos-aires-37809800/


Douglas Silvano é professor de Educação Física em Sombrio, Santa Catarina, e atua em iniciativas relacionadas a políticas públicas, à educação e ao desenvolvimento do esporte!

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